Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

Tribunal censura denúncias de ilegalidades

Quebro o silêncio do espaço com a promessa de futuros textos. Entretanto deixo aqui o artigo do Daniel Oliveira assim como o seu conteúdo. O que é aqui denunciado e o que está em questão é a liberdade de expressão e o direito de reunião no ciberespaço. A Difamação é um crime sério que merece equidade e avaliação em ambos os lados. Fazer da Justiça um instrumento arbitrário de censura na Internet (aquela selva) para beneficiar interesses privados é absolutamente inadmissível.

 

Convido toda a blogosfera a partilhar esta ocorrência e os comentários censurados. O Conteúdo dos mesmos, particularmente brandos, demonstra a radicalidade da decisão tomada.

 

Uma empresa (Ambição Internacional Marketing) exigiu, em tribunal, que os comentários a um post do blogue do movimentoPrecários Inflexíveis (http://www.precariosinflexiveis.org/2011/05/testemunho-axes-market.html) fossem apagados. Primeiro facto: o texto em causa era sobre uma outra empresa (Axes Market). Na realidade, os nomes de várias empresas vão-se sucedendo, sempre com a mesma morada, e é por isso provável que seja sempre a mesma. Eles lá sabem porque não gostam de ser identificados. Note-se: não se pediu para ser apagado o post original ou qualquer comentário específico considerado injurioso. Todos os 360 comentários, falassem daquelas duas empresas, deviam desaparecer.

 

Com base no direito da empresa "a ver respeitada a sua honra", o tribunal não mandou apagar tudo, mas muitos dos comentários, mais uma vez incluindo os que nem sequer a referiam. Ou seja, de forma arbitrária, o tribunal decidiu, sem a análise de qualquer matéria de prova de que havia ali qualquer injúria, o que era ou não aceitável escrever. As denúncias de atropelos à legalidade por parte desta empresa, feitas por várias pessoas que nãõ~se conhecem e que com ela trabalharam, até podem ser todas verdadeiras. Mesmo que a empresa viole o tribunal decidiu que, em defesa da sua honra, que essas violações devem ser ocultadas.

 

A Ambição International Marketing, que avançou com o processo, nunca pediu direito de resposta aos Precários Inflexíveis ou contactou o movimento. Não avançou com qualquer queixa relativa ao conteúdo de qualquer comentário, que permitiria aferir se estes eram ou não injuriosos. Não se tratou, assim, de saber se o que foi escrito nestes comentários era falso ou verdadeiro. Era negativo para uma empresa, ela exige censura e o tribunal manda aplicar. Saber se, com esta decisão, está a ser cúmplice com a ocultação de violações da lei não parece ter preocupado o juiz que tomou esta brilhante decisão.

 

Porque não aceito que a justiça possa ser um instrumento de censura a pedido de quem não gosta de ser criticado, publico aqui alguns dos comentários que o tribunal mandou apagar, já que a providência cautelar apenas diz respeito àquele blogue específico e não se aplica a este espaço ou a qualquer outro. Mostrando a estes senhores que, quando tentarem calar os outros, apenas se habilitam a ampliar-lhes a voz. Que esta censura, com a inacreditável cumplicidade de um tribunal que parece desconhecer o valor constitucional da liberdade de expressão, tenha o efeito exatamente oposto ao pretendido.

 

"Eu fui lá ontem,e achei que a empresa era séria,agora chama-se International Marketing Lda e encontra-se na Rua dos Fanqueiros Nº277 2ºesq,chamaram-me para ir lá hoje passar o dia e não sei o que fazer, sei que disseram-me o mesmo que vós disseram, mas não parece que estejam a enganar. mas hoje vou tirar isso a limpo com a Ana Santos"

 

"Boa tarde, Fui a primeira entrevista ontem na rua dos fanqueiros e confirmo tudo o que está aqui, uma espanhola a falar a mil, fui "selecionado" para passar um dia com eles na segunda-feira, podem me explicar em que consiste o trabalho??" "

 

É para vendas porta-a-porta ou "peditórios", conforme a campanha com que estejam actualmente. É 100% à comissão, logo não tens direito a nenhum subsídio, ou seja, pagas a tua alimentação, roupa (que tem que ser formal!) e deslocações para o "escritório", e daí para o local para onde te enviem. Espera-se que trabalhes 12h/dia, de segunda a sábado. Ah, e quando te vais embora não te pagam sequer as comissões das vendas que fizeste, que foi o que me aconteceu a mim."

 

"Olá a todos. Obrigada pelos vosso comentários. Recebi um mail de resposta à candidatura para o INTERNATIONAL MARKETING LDA, mas achei estranho a forma como estava redigido, centrando-se muito na "sorte" que se teve ao ser-se um dos escolhidos entre muitos. Também achei estranho o facto de termos de ser nós a telefonar-lhes e não oposto. Fui procurar na net informação sobre a empresa e não encontrei nada, deparei-me apenas com os vossos testemunhos. Isto assusta-me muito. na realidade já existem empregos em que o patrão se aproveita do trabalhador perante a garantia do seu desespero em manter-se empregado. Questiono-me se não nos fizermos respeitar onde é que as injustiças laborais vão parar. O esquema dessa empresa parece-me um futuro negro que se pode multiplicar e tornar a realidade. Obrigada a todos."

 

"Só queria dizer, que fui a essa BF Group, e também passei o dia das 10h as 19h, com eles porta-a-porta, e rejeitei o que eles me pediam. Tou desempregado, mas hj vi um anuncio de emprego para essa international markting portugal, e obrigado pelos vossos testemunhos, mas assim ja n vou la fazer nada....."

 

http://expresso.sapo.pt/daniel-oliveira-antes-pelo-contrario=s25282

publicado por Mrego às 13:21
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito
|
Quinta-feira, 8 de Março de 2012

O desafio de Ser (Dia da Mulher)

Quero aproveitar hoje o meu intervalo de abastecimento calórico, para depositar algumas palavras sobre a condição feminina neste Dia Internacional da Mulher.

 

Primeiro deixemos de lado o propósito essencial desse dia de sensibilização: A luta pela dignidade e igualdade de oportunidades nos países terceiro-mundistas. Não existe nenhum argumento racional nem palavras para classificar a consternação provocada pelos moldes opressores que algumas sociedades, já à partida desiguais, selam o destino da mulher e a sua existência em moldes que só podem ser comparados com o tratamento do gado.
Quando a indignação é demasiado grande essa exige sempre mais atos do que palavras.

O que eu quero abordar aqui é a posição da mulher na sociedade portuguesa e, de modo geral, de todas as cidadãs de sexo feminino que vivem em Republicas que não condicionam constitucionalmente as suas aspirações pelo seu género.
Este tema exige não só cautela como é sujeito a um grande relativismo precisamente por responder ao único elemento imprevisível e desafiador de qualquer democracia: A opinião pública.

 

Analisando a situação atual, a descriminação e o condicionamento das mulheres na cultura contemporânea é influenciada por uma teia confusa que integra tanto vestígios tradicionais como fenómenos modernos.
Por tradicional entende-se o peso matriarcal que a encerra num círculo reprodutor que condiciona as suas aspirações essenciais: A procriação e educação da sua progenitura. Entende-se igualmente como tradicional o peso de uma cortesia que assenta algures entre o prestigio masculinizante da condescendia e uma forma não pronunciada de sedução e necessidade de sexualização constante no relacionamento interpessoal entre homem e mulher.

 

Por moderno entende-se o fenómeno mais amplo da mercantilização do relacionamento interpessoal e a ultra valorização do Ego. Esse proxenetismo visual que pretende dar a tudo e todos uma constante resposta para qualquer desejo seja esse uma breve sessão onanista ou um consolo mais amplo das suas expectativas emocionais. Se há dinheiro em jogo haverá sempre alguém para jogar e alguém para apostar porque a nossa definição de liberdade embarca as possibilidades individuais de cada um e essas passam irremediavelmente pela comercialização, não só das suas ideias, como também da sua própria dignidade.

 

Gostaria de poder dar uma resposta mais completa mas é nesse ponto do raciocínio que acaba a minha legitimidade para refletir sobre o papel da mulher. Não sou nem cresci como mulher. Cabe as portuguesas decidir preencher este espaço vazio com base na sua experiencia pessoal. Refletir sobre si e sobre o mundo é algo de humano e na profusão dos pensamentos e debates a expressão dos sentimentos sobre si e a sua experiencia são uma prerrogativa civilizacional independentemente do sexo: É uma luta pessoal com repercussões coletivas.

 

O que eu posso sim comentar é a minha posição como homem nesta sociedade. Por existirem igualmente pressões sociais e expectativas no género masculino, perceciono um possível paralelismo que nutre um inimigo comum aos dois sexos: O peso dos outros na liberdade individual.
Quem duvidar desse facto pode observar a evidente xenofobia que pesa sobre os homossexuais de sexo masculino. Se o género fosse imune a essa avaliação como explicar a violência que impõe a homens as suas opções sexuais? Como justificar o gozo provocado pela presença de homens em tarefas consideradas femininas? Como explicar o desprezo por sentimentos femininos ou posturas alternativas dentro do seu próprio casal?
Essas pressões não só existem como são eficazes. Condicionam os homens nas suas expectativas. Moldam os seus rituais de interação e coloca o distanciamento, o machismo e a libertinagem como únicos elementos de glorificação e destaque pessoal.

 

A meu ver a Liberdade é um conceito Republicano. É um diálogo que mantemos com a parte racional do nosso país: A Democracia. O conseguimento da não existência de descriminação no seu eixo fundamental representa uma porta aberta… Cada um é livre de a atravessar. Não há luta de sexos, apenas lutas de afetos. Entre amores não correspondidos, expectativas sociais e compromissos com a nossa cadeia de afetos a liberdade de sermos nós próprios está tão condicionada no sexo como em qualquer outra temática.

 

Como homem e como ser humano anseio pelo direito de ser eu próprio tanto nas minhas escolhas como nos meus pensamentos. Uma página branca de mim mesmo que escrevo com a ajuda de quem autorizo e com aquilo que gosto de pensar ser da minha autoria. No caminho dessa escrita surgem muitos adversários e desafios e é com eles que eu luto, por vezes perdendo, por vezes vencendo. A crueldade aplicada a qualquer ser humano e a sobreposição pessoal sobre o outro é um fenómeno presente na nossa cultura atual e que eu repugno secamente. Porém a estrutura legal do meu país satisfaz-me por não sentir, talvez erradamente, os entraves do género. É este sentimento e este privilégio que eu gostaria de ver na mão de todas as mulheres deste mundo neste dia como nos 364 dias restantes.

publicado por Mrego às 14:09
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Greve

Ontem tivemos mais uma greve nos transportes públicos. Se procurava os grevistas à porta das estações de comboio, distribuindo panfletos e procurando sensibilizar os utentes perante a perda de qualidade dos serviços, terá ficado certamente desapontado pois era no meio de um desfile carnavalesco que os teria certamente avistado.

 

O dia de folga era-lhes mais do que merecido nem que pela compensação no ordenado. O “disfarce” de greve, mesmo pela circunstância, é que não fez boa figura. O problema é que já tivemos muitas destas Greves. Daquelas sem resultados, que deixam o utente desemparado e abandonado com a sua frustração em alturas em que esse transporte se torna mais essencial.

 

Resultados desta greve? O Estado encaixa os custos. Como paga o contribuinte e que os gestores e governo deslocam-se habitualmente em altas cilindradas, ficam-se pela contrariedade de ter que redigir um discurso de circunstância. O utente, que é severamente castigado, já perdeu o fio da indignação. Já não sabe se a greve é pelos motivos das greves passadas, se é por esses, pelos presentes e quem sabe eventuais futuros. Já não sabe sequer se estava bem informado sobre os motivos passados e não encontra ninguém que lhe explique devidamente os motivos presentes. Os resultados são portanto para uns indiferença e para outros uma indignação contraproducente aos objetivos da greve. Perante a incompreensão não esperem do eleitorado compaixão. O candidato com o discurso mais feroz será o preferido dos utentes.

Assim tem acontecido. As reivindicações da greve nunca são atingidas e as consequências nos votos vão cada vez mais no sentido contrário aos objetivos.

 

Na Esquerda parece existir princípios sagrados que não são sujeitos a avaliação. A greve é uma delas. O conceito de boa ou má greve é irrelevante. Uma greve é uma greve. É conseguida quando tem muita adesão e é conseguida em menor escala quando tem menos. Nos dois casos é conseguida. Se necessário aumenta-se o número real de grevistas, o cidadão já está habituado a fazer a média com os números igualmente fictícios da polícia.
A luta é uma reza. Vai-se para ela sem cabeça e por amor à camisola. Na pior das hipóteses espera-se que os objetivos sejam atingidos pelo karma.
Essa problemática está evidentemente ligada a questão da avaliação das chefias na Extrema-Esquerda. É a habitual governação para dentro, quer do partido em relação ao eleitor comum, quer do sindicato em relação ao eleitor ou utente. Mais do que para o povo, ambos rezam para uma divindade superior. São como padres a pregar em latim. Não percebem? Percebessem, não estão dispostos a mexer no seu tradicional vernáculo sagrado.
E é assim que, como dizia o Padre António Vieira, a Esquerda torna-se o sal que não salga. Quem se preocupa com a concretização real da sua ideologia lamenta que ninguém procure pregar aos peixes pois a cada eleição paga uma fatura salgada.

 

A Greve dos transportes de ontem é o exemplo mais avassalador. Haveria muito para dizer das manifestações que juntam PCP e profissionais que, olhando para o horizonte de alcatrão gritam e pulam para depois votar PSD nas eleições. Haveria muito a dizer sobre as corporações de funcionários públicos que se indignam em grandes congressos à porta fechada sem a presença da sociedade civil. A total incompetência, preguiça e ortodoxia na comunicação do que se viu ontem não poderia ter proporcionado melhor carvão à máquina de Direita.

 

Não, todas as greves não são boas e muito menos sempre conseguidas. O seu molde atual é aliás muitas vezes ineficiente no contexto do trabalho público. A greve nos dias de hoje é assustadoramente antiquada e presa a uma leitura ortodoxa da conceção Marxista. Tanto no seu decorrer como na sua apreciação dos resultados.

 

O conceito de luta de classes encontra-se completamente desatualizado do contexto Democrático atual e exige uma leitura filosófica capaz de filtrar e adaptar essa visão. Talvez seja por essa incapacidade que muitos na nossa esfera ideológica demonstram pouca permeabilidade perante a escrita bíblica, mas a verdade é que este é mais um dos elementos de intransigências irracionais que eu dispensaria. Todas as filosofias devem ser enquadradas no seu contexto temporal e renovadas perante o “momento” contemporâneo. A Filosofia Marxista nasce num mundo opressor e no qual a democracia é minoritária e extremamente opaca. Perante a ausência de Direitos a aquisição dos mesmos passava inevitavelmente pela violência. Em todos os aspetos a sociedade de classe dividia-se em camadas perfeitas de desigualdade material e intelectual. Por contraste, o contexto atual proporciona não só as ferramentas educativas de forma igualitária como coloca no cidadão o poder colossal do voto. Esse progresso Civilizacional tornou o conceito de classes muito menos insolúvel.

 

Em Portugal essa realidade é infelizmente ainda muito recente e a construção mental da máquina opressora fascista perdura na mente de muitos homens de peso na esfera da defesa dos direitos. Muitos conjugam ainda essa equação perante sinónimos reformulados e reagem perante ela com as ferramentas de outrora.

Essa herança respeitável e que eu defendo tanto como o direito sagrado de Greve exige não só reformulação como o maior respeito. Autorizar-se

ineficácia e comodismo é desrespeitar esse princípio sagrado.

 

Não tenho em mão todas as soluções para o problema, mas consigo esboçar linhas. A primeira é que tanto a greve no sector público como a manifestação devem ter como principal metas a sensibilização do eleitorado. Não façam comícios corporativos, abram as portas à sociedade civil e procurem partilhar o sentimento de indignação de forma a proporcionar a criação de movimentos de utentes. Utilizem a manifestação como elemento de união e de comunicação entre todos (menção especial para o bom trabalho dos Indignados nesse ponto). Não façam apenas cartazes que perguntam, façam cartazes que dão respostas. É preciso combater os que nos rotulam de ser “do contra”. Temos ideias e projetos e devemos fazer deles os nossos estandartes. Arrisquem a desobediência civil em coletivo favorecendo os consumidores com benefícios excecionais. Os Agricultores são um exemplo positivo dessa atuação na distribuição dos seus produtos diretamente ao consumidor.
Este projeto de uma nova expressão da Greve é uma construção que só nos podemos fazer à luz do mundo atual e na qual todos deveríamos poder participar.

 

Só a Indignação corajosa e esperançada pode mudar o rumo eleitoral.

publicado por Mrego às 13:54
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012

Cassandra

Verdade mas também desonestidade Senhora Merkel. Na altura as empresas portuguesas tinham todas as possibilidades de financiamento através do capital privado. Como tal era natural os políticos apostarem na mudança de factores económicos com os quais as empresas não podiam interagir: As infra-estruturas. É fácil falar quando se começa um processo de modernização nos anos 50. Portugal teve que começar nos anos 80, altura em que a Alemanha já estava bem preparada.

 

Porque não aproveitou Portugal o fácil financiamento para a sua iniciativa privada? Porque 41 anos de fascismo apologista da humildade e ignorância deixam marcas.

 

É fácil falar, especialmente de um caso tão grotesco como o de Jardim. É perfeitamente certo que muitas das opções foram mal pensadas e desviadas para proveito corrupto. Porém dizer que toda esta situação era previsível é uma grande mentira.

 

Portugal não pecou na intenção, pecou na execução e lutou contra factores que demoram tempo numa fase em que, sem o saber, já não sobrava quase tempo nenhum. Os bancos criaram um clima de confiança porque era esse (deveria ainda) ser o seu papel. Muitos entraram em crédito porque tudo indicava que seriam capazes de o pagar. Ninguém previa na sombra o processo progressivo de migração laboral que iria tornar o emprego precário. Ninguém previa a teia complexa de redes especulativas que iria tornar o crédito concedido cegamente num negócio lucrativo através dos credit default swap. Caso que provocou uma bolha da qual Portugal não beneficiou em rigorosamente nada pois as suas taxas de juros eram ainda assim bastante mais elevadas do que as das suas congéneres europeias.

 

Porém Portugal está a pagar o preço.

 

É fácil ser profeta do passado. É verdade que alguns sabiam o que estava a acontecer. Um grupo de tecnocratas escolhidos que tudo fizeram para esconder não só o que se estava a fazer na esfera financeira como ocultar os riscos iminentes.

 

Eu sei que sabe muito bem de quem estou a falar Senhora Merkel… Porque faz agora parte deles.

publicado por Mrego às 09:48
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

Eleftheria i thanatos (Gregos e Troikianos)

A questão Grega tem agitada, um pouco mais do que o habitual, a actualidade política desta semana.

 

Em pleno período de negociação do seu previsível novo resgate perante a sua previsível recensão e previsível incapacidade de financiamento, surgem varias problemáticas que, não sendo novas, suscitam a necessidade de reafirmação de todos os elementos do xadrez político.

 

Passo Coelho reafirmou que o acordo era para cumprir seja “qual for o custo” e que Portugal não era a Grécia. A Europa (Merkozy) reafirmou que a austeridade é o único caminho possível para mais federalismo e que a Grécia deveria consequentemente aumentar a dose do “remédio” (veneno). Camilo Lourenço, economista e embaixador da política orçamental troikiana na comunicação social em regime diário, reafirmou que os Gregos eram “ingovernáveis” e que deveriam sair pois estavam a prejudicar o bom rumo do novo projecto europeu. Em tom de resposta, os Gregos reafirmaram o seu desejo de Democracia e liberdade de definir o rumo do seu destino.

 

Poderia ter partilhado mais umas notícias no grupo facebook do Civismo… Farei também eu o mesmo exercício de reafirmação.

 

No que se refere a atitude portuguesa, quero denunciar a prepotência desesperada e cobarde do discurso que, no limiar da xenofobia, apresenta o povo Grego como um agente infeccioso ao qual Portugal não se pode comparar, sendo antes o nosso país uma ligeira constipação que por casualidade anda viciada em antibióticos.

 

O sentimento anti-helénico não merece resposta da minha parte. Quem não reconhece dignidade a um povo que reclama a sua, precisa de abrir um dicionário. Quem despreza um povo que procura a sua dignidade não terá dificuldade em digerir o meu desprezo. A reacção contra a xenofobia é de facto uma composição de uma simplicidade simétrica.

 

O desdém e desgosto ornamental da actual estrutura governativa já merecem mais a minha atenção pela desonestidade intelectual que representam. Portugal não apresenta em nenhum aspecto semelhanças com a estrutura Económica Irlandesa. A robustez do país perante a austeridade tem sido não só um sucesso muito relativo como a prova de uma solidez económica anterior que advém de múltiplas condicionantes. Nem a força de vontade nem a submissão perante a austeridade figuram como elementos condicionantes deste caso de “sucesso”.

 

A febre insana da tecnocracia social-democrata inspira muitas imagens, metáforas ou comparações.

 

Portugal enfrenta nu um inverno rigoroso. Ao seu lado está a Irlanda de camisola e a Grécia nua prestes a morrer de frio. O Lusitano enche o peito e faz o confiante: Está convencido de que a sua pele é mais dura do que a Helénica. Para mostrar a sua força despreza a Grécia e goza-lhe o fraco epiderme “Bem pode morrer”. No corpo de Portugal porém surgem todos os sintomas da hipotermia. Conhece os bem, são os mesmos que teve a vizinha desprezada. São muitos os que dificilmente passarão o inverno. São muitos os que morrerão sem se conhecer.

 

Perdoam-me esta infantilidade mas os factos concretos já não precisam de apresentação. Tanto os Portugueses como os Gregos não precisam das análises de jornais Americanos. A aplicação das medidas e a crise que delas nasce é algo que os dois povos sentem na pele. Portugal não cumprirá as metas do acordo e não conseguirá “pagar o que deve” nos moldes actuais. Quem valoriza o humanismo pela solidariedade na condição humana não convive bem com a ideia de deixar a arrogância e o individualismo em epitáfio. Quem valoriza a gestão estratégica não convive bem com oportunidades diplomáticas desperdiçadas.

 

Reafirmo que o deficit Democrático explorado pela comunidade europeia através da chantagem torna ainda mais impraticável o desastroso projecto. Camilo Lourenço tem razão quando diz que os Gregos são ingovernáveis. Inexplicavelmente, é vício de democratas querer ser governado apenas por si mesmo. Talvez seja porque a subjugação mercantil tem tendência a funcionar muito menos quando se deixa de poder comprar seja o que for.

 

O que acontece é que quando já não há dinheiro para comprar objectos as pessoas tendem a querer comprar dignidade. Tem um preço elevado é verdade mas não precisa de capital para ser adquirido.

 

São assim as pessoas: sedentas de objectos e valores.

 

Hoje há mais uma greve geral na Grécia ocupada. Imagino que a primeira terá atraída muitos reivindicadores do material. Atrevo-me a pensar que hoje terá mobilizada muitos reivindicadores de valores.

 

Eleftheria i thanatos, Liberdade ou Morte, é o lema da Grécia. O governo, representante do povo, já não pode agradar aos Gregos e aos Troikianos… Talvez seja por isso que esses Gregos agradam-me.

publicado por Mrego às 16:37
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012

A Fé política, o magma que está por trás de todo o pensamento e postura cidadã, é como qualquer Fé: Cega e louca.

 

Os Sacrifícios pelo bem colectivo exigem uma abnegação altruísta semelhante ao religioso perante o seu Deus. É na desigualdade das proporções, no divino e no vivo, no invisível e no visível, no sentir e no imaginar que um procura pelo limitar consciente das suas possibilidades a emulação da transcendência para além da racionalidade.

 

Porém, errado está aquele que não sente o paradoxo que une o altruísmo e o individualismo. A glória do mártir pode trazer mais prazer que a segurança do cauteloso medíocre e é perante essa preferência que o “pior” pode ser preferível.

 

Num mundo sem barómetro metafísico para avaliar o bem, o sensorial surge como o primeiro critério de avaliação perante qualquer decisão. É portanto natural que esse seja o elemento de perturbação do homem de fé. Pela opulência a qual abdica, pelo carnal que lhe é proibido, o dedo acusador do outro ou da sua própria racionalidade, aponta o vazio e ausência de certezas procurando arrasar a “ilusão” de pureza, procurando arrasar a Fé.  

 

São poucos os elementos para acreditar e o Homem está condenado a ser Homem: Imperfeito. O recipiente humano é bem frágil para segurar tamanha perfeição e a transcendência maniqueísta torna-se um fardo íntimo. O pecado e a imperfeição atormentam o melhor de nós através da culpabilidade. A tentação de renunciar a esse sofrimento, abraçar o seu Ego e embriagar-se da sua animalidade, não possuí nenhum adversário senão a própria Fé.

 

É essa a batalha silenciosa que decorre em muitos de nós e são muitos os elementos externos que pretendem influenciar o desfecho dessa luta.

 

A constância na moral só tem equivalente na constância na política. Não me refiro a tecnocracia e a sua gestão racional baseada nos aspectos lucrativos de qualquer decisão política. Desejamos há muito constância nos nossos representantes políticos e solidez moral e patriótica no nosso eleitorado.

Refiro-me a aqueles que, de Esquerda ou de Direita, estão dispostos a qualquer sacrifício sensorial individual pela primazia dos seus princípios ideológicos.

 

A Fé do Democrata ou de qualquer indivíduo que coloca o bem colectivo como superior baseia-se no rosto metafísico do Povo. A Fé do individualista reside na crença da metafísica do seu Ego. Ambos procuram destruir a figura divina do outro apontado para as falhas e ausência de provas que cada um apresenta respectivamente. A razão pela qual conseguem fazê-lo com tanta eficiência é porque ambos partilham a esquizofrenia dos dois raciocínios. O homem do colectivo já foi atormentado pelo individual e o homem do individual já foi
atormentado pelo colectivo. Porém ambos manifestam-se, embora muitas vezes inconscientemente, como representante de um dos dois.

 

Como homem de Esquerda o meu alvo filosófico principal, a matriz do meu raciocínio, reside na crença na Humanidade na sua dimensão colectiva. É portanto nesse sentido que me apontam as falhas do meu dogmatismo e linearidade. Apresentam-me provas do pior do humano, dividem a sociedade entre virtuosos e pecadores e colocam em maioria os que vivem do sensorial independentemente dos outros. Procuram destruir qualquer fé na construção civilizacional colectiva e sugerem a liderança de um grupo de privilegiados livres de qualquer moral pois são cães a mandarem em cães. Essa fatalidade é uma jaula confortável na qual muitos procuram aprisionar-me.

 

Sou a Esquerda arrogante.

Sou hipócrita ou insano.

Sou megalómano e patético.

 

Cada um poderá responder da forma que entender perante este assalto ideológico. Cada um poderá mudar ou manter-se. Afirmo aqui que qualquer racionalidade política de Esquerda é construída sobre as bases de uma profunda história de Amor. Como qualquer paixão essa é sim egoísta, como qualquer paixão é cega e imperfeita. Assumo-a até ao limite e sonho-a eterna. É do seu calor que me aqueço e é por ela e por mim que me mantenho irremediavelmente fiel apesar de tudo.

 

É esta a mensagem identitária que quero para o “Civismos”.

Quem discursa política desprezando a Fé política não poderá obter aqui nada mais do que uma resposta formal. Quem assumir a sensibilidade e fraqueza da sua impalpável moral é aqui bem-vindo, seja qual for o seu “Deus”.

Permitam-me apresentar-vos os pormenores do meu neste espaço através dos meus textos.

 

publicado por Mrego às 16:58
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

Perder a face (até perder a cabeça)

 

Na sequência do texto anterior, as palavras do nosso caro Presidente Cavaco Silva permitem-me fazer uma transição oportuna sobre a necessidade da moral na sua dimensão iconográfica. Referi aqui a necessidade de virtude no acto, quero agora salientar a necessidade de virtude na “plástica”.

 

A função de Presidente da República em Portugal, tal como a conhecemos nesta ou noutras Repúblicas, não difere em muito da visão monarquista que considera necessário uma simbologia carnal na representação Republicana. Enquanto noutros países a função simbólica do presidente não é diferenciável de uma política governativa, o PR português assume-se como símbolo impotente da República e ao qual foi conferido diversos instrumentos que ele terá que evitar para preservar a coerência e prestígio republicano. É por não fazer nada que um Presidente da
Republica demonstra a passividade necessária para não ser alvo de qualquer crítica e conseguir federar o maior número de português em volta da sua figura de “mascote”.

 

Para marcar o cunho da Republica Democrática, esse monarca corresponde aos critérios essenciais da mesma: Temporário e sem direito de sangue.

 

Há utilidade nessa função… Nem que seja na teoria, mas não é a meu ver a simbologia mais eficiente para o nosso modelo pois falta-lhe uma
componente essencial: A legitimidade pelo acto.  Numa construção social que glorifica a identidade do Homem pelos seus actos, a passividade burguesa do presidente perturba. É de esperar passividade de uma bandeira de tecido… Não é compreensível o prestígio pela inacção de um cidadão.

 

Por outro lado não valorizo sequer a necessidade de uma simbologia carnal numa Republica Democrática. O símbolo de um Estado Democrático representa-se pelo rosto invisível dos milhões que compõem o seu eleitorado e que pelo acto individual do voto, repercuta-se e amplifica-se até ganhar
contornos civilizacionais. É o paradoxo de um voto não contar e porém todos serem importantes. Há algo de quase metafísico nessa questão e que poderia ser muito mais valorizada pois a sua impalpável natureza confere um símbolo Republicano de natureza quase divina.  

 

Voltando ao Cavaco, seria inútil adicionar mais palavras aos numerosos comentários que denunciaram a evidente insensibilidade social do Presidente no pior dos contextos. Apenas quero acrescentar que esse comentário, aparentemente anedótico e tendo em conta a utilidade puramente simbólica da função, é matéria mais do que suficiente para um pedido demissão.

 

Ao perder a credibilidade e ao falhar inexplicavelmente uma das suas raras comunicações, o Presidente não se encontra neste momento capaz
de exercer o seu cargo: Representar os cidadãos da Republica Democrática. A natureza temporária permite precisamente essa possibilidade.

 

Mais interessante ainda foi a resposta da população e que veio confirmar a natureza passiva do eleitorado assim como a sua completa desilusão perante o seu sistema político.

 

Multiplicaram-se os movimentos, as frases de humor e outras caricaturas. Imprimiram-se t-shirts e fizeram-se encenações grotescas… O cidadão, fatalista, exorciza a sua alienação governativa e faz da sua desgraça lenha para o aquecer neste inverno. A Sátira torna-se o vírus de um prazer masoquista que namora com a insanidade e demonstra mais uma vez que o humor é o maior representante do niilismo político da nossa geração.

 

A natureza violenta dessa machadada na confiança demonstra que há ainda um fundo de esperança atrás dos discursos fatalistas. Os portugueses já não acreditam nos seus políticos sem precisar de argumentos. Alimentar de forma explícita esse pensamento com provas inquestionáveis é atacar a ultra sensível e pequena parte de ilusão que subsiste em muitos. Quando essa pequena parte for derrubada por completo, o povo seguirá qualquer outro profeta independentemente da sua cor desde que simbolize ruptura com a Democracia. O perigo é evidente e é nesse sentido que tenho alertado várias vezes para a sua existência. É com base nesse raciocínio que a demissão de Cavaco me parece uma opção sensata.

publicado por Mrego às 14:07
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

O preço da blasfémia

 

O Afastamento do pensamento político da reflexão moral e filosófica é algo que podemos constatar todos os dias. Surge mais evidente perante uma ou outra proposta mas no caso português a acumulação de incongruências, inconstâncias e contra-sensos ultrapassa o simples quadro legal. Todas estas blasfémias desgastaram o carácter divino da Republica Democrática e tornaram o povo Ateu… E tudo para quê?
Neste tempo de crise o cinismo estratega parece afastar qualquer problemática moral em nome da preservação de um “Bem” que se torna cada vez mais indistinto. Por cada novo suposto “pragmatismo” Portugal dá um passo mais perto não apenas da sua morte económica mas também da sua morte ideológica.

 

Aponta-se a rectidão moral e ideológica como redutora e demagógica em oposição com o oportunismo responsável. Gostaria de responder a todos esses tecnocratas da vida que se procurar concretizar a perfeição por meios utópicos é loucura, agir em nome de uma utopia não o é. As nossas Republicas Europeias vivem de aliás de uma bem conhecida: A Democracia. É em nome dessa utopia que os povos são sujeitados ao pragmatismo que tem ganho terreno e que chegou ao ponto de considerar a limitação democrática como a opção política mais razoável para a Democracia.

 

De que motor se move o Portugal de hoje? De que ideal se faz a Europa? As palavras destoam claramente dos actos e o “pragmatismo” surge como um pensamento amorfo feito de lobbismo e benefícios pessoais numa matriz consumista.
Gostaria de demonstrar aqui, com um exemplo simples, que o denegrir de princípios não faz do “pragmatismo desapaixonado” benéfico senão prejudicial e isso de forma duradoura.

 

Não faltam temas “nobres” para dar provas disso mas vou utilizar uma das propostas que tem agitado o tecido eleitoral nos últimos dias: A manutenção de parte do subsídio de desemprego como compensação para uma nova função de valor inferior.

 

Esta medida é mais uma vez o exemplo de uma táctica pragmática que “brinca” a dinamização económica através de chavões. O pragmatismo não reside aqui na aplicação desse conceito ingénuo em prol de uma fé política, senão no “pragmatismo” que consiste em agradar os elementos da Troika independentemente da medida aplicada. O Triumvirate faz aqui de ingénuo ao serviço de uma utopia amorfa e que procura aplicar as mesmas soluções que provocaram o problema. Conscientes ou não do fim do Império, é em nome do pragmatismo que todos os actores

desempenham os seus papéis sem qualquer motivação para além do seu compromisso com esta tragicomédia.

 

Numa Democracia que funciona um trabalhador não deveria precisar de qualquer incentivo para trabalhar. O labor é um dos elementos incontornáveis tanto da sobrevivência como do progresso. Como justificar a inacção apenas pela intransigência perante uma função abaixo da suas expectativas? Tal atitude é tão parasitária como o abastecido sustento do património e do Capital com a qual a Esquerda se opõe. Um emprego pode representar uma experiencia temporária antes de surgir uma oportunidade melhor.

 

É natural que essa concepção justa suscite expectativa por parte dos que fazem a Economia. O problema, é que essa concepção colide com uma realidade injusta e na qual o trabalho não garante nem um sustento digno nem corresponde a uma justa repartição das riquezas.
Enquanto a tabela salarial deveria ter sido actualizada para corresponder as necessidades do ideal democrático socialista através do Estado Social e da garantia do sustento essencial, a riqueza produzida escapou através dos rendimentos do capital, mantendo-se o salário baixo na expectativa de que algum dia esse sacrifício nos traria benefícios, como se tal fosse o único elemento de atractividade que um país possa ter. Ao congelar a evolução dos salários deixando escapar a riqueza produzida, o Estado endividou-se e delegou aos bancos privados não só a sobrevivência do Estado Social como o acesso das aspirações necessárias do povo através do crédito. Assinou tratados em contradição com o seu ideal nacional e cultivou um discurso contrário aos actos e que acabou por tornar-se insustentável.

 

Este assobio para o lado selou uma maldição que promete ter efeitos nefastos tão duradouros como o Salazarismo. A reconstrução e o progresso de que o país precisa esta condenada a um longo período de sofrimento bem superior à estratégia estéril proposta pelo centrão.

 

Esta conclusão poderia ser menos amargada não fosse o exemplo dos países que perante a crise demonstram robustez. Todos esses países possuem em comum uma distribuição equitativa do rendimento por comprometer salários adequados as aspirações dos cidadãos através do pagamento elevado de impostos sobre o trabalho. Ao comprometer a sua nação a um ecossistema exigente a Educação produz os talentos capazes do génio criativo que a Economia precisa. Confrontam as empresas ao pagamento de impostos, reduzindo os impostos sobre as empresas (demasiado incontroláveis nos dias de hoje) e reforçando o imposto sobre o trabalho que representa um valor consistente no contexto internacional. Ao comprometer as empresas a melhores salários é parte do dinheiro destinado a fuga fiscal que acaba por ser investido no trabalhador para depois ser colectado pelo Estado de forma mais eficiente. Todo este ecossistema justo compromete não só a classe política como o tecido eleitoral a um código moral exigente dos quais todos beneficiam.

 

Entretanto do lado dos países saídos de fresco do fascismo negociamos diariamente com as excepcionalidades. Para colocar uma população a exercer uma das suas funções fundamentais, o contribuinte deve pagar mais uma vez de forma a garantir a sobrevivência dos assalariados. Tudo porque no passado, em nome de um suposto ecossistema frágil e com o qual não se deveria interagir para possibilitar o desejado progresso. Aconteceu precisamente o contrário e Portugal depende ainda muito do tecido económico proveniente dos tempos de autonomia monetária e política.  

 

Perante esta nova proposta insustentável num país em crise, não subsiste qualquer dúvida de que estamos perante a promessa de uma corrida aos abusos (o prazo de 6 meses coincide em pleno com a duração do contrato de trabalho). De Cavaco para Passos nada parece ter melhorado substancialmente e a Direita Portuguesa continua péssima perante a sua ideologia e perante outras Direitas Europeias independentemente de, como é o meu caso, sermos de outra sensibilidade política.

 

No contexto de crise actual o argumento demagógico de que os desempregados não trabalham porque não querem torna-se obsceno e grosseiro. O governo retirará tanto proveito como a população da sua demagogia infundada: Pouco ou quase nada.

 

O acordo de paz social assinado é o reflexo de uma sociedade laboral dividida que interage hipocritamente independentemente de qualquer ideal. Poupem-nos o triunfalismo chauvinista. Esse merece mais do que ser refém da mediocridade. O acordo assinado é apenas mais um passo na espiral niilista governativa perante um povo ateu e que dá cava vez mais de querer o regresso de uma religião que pensávamos ter enterrada.  

publicado por Mrego às 20:56
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012

Pedreiros e privilégios

 Sempre encarei a maçonaria como um tópico caricato de conversas com o meu avô reaccionário. Uma espécie de chavão que cristaliza o seu medo da existência de uma paroquia ateísta secreta. Inútil dizer que o contexto noticioso alterou bastante essa percepção.
Por conhecer a maçonaria nos seus termos históricos e por ter nascido numa sociedade onde tais formalidades já foram há muito trocadas pelos convívios nas praças recreativas de “excelência”, nunca encarei o tema com grande seriedade nem nunca ponderei a sua eventual consequência nos dias de hoje.

 

O número avassalador de deputados que prestaram juramento de obediência e serventia para uma dessas organizações secretas foi certamente para muitos portugueses “um murro no estômago”… Para outros, como o meu avô, terá sido apenas uma marca deixada pelo seu bicho papão. Do lado da “Elite” não houve porém qualquer surpresa para além do facto de ter sido apanhado em flagrante algo com o qual todos já se parecem ter conformado.

 

Num país onde a méritocracia e incorruptibilidade é gangrenada por teias invisíveis mas que a opinião pública sente, a maçonaria veio preencher a necessidade de concreto, capaz não só de provocar a indignação como justificar o mimetismo em menor escala da selvajaria egocêntrica daqueles que governam o país.

 

O combate pela igualdade de oportunidades raramente pareceu tão desesperado desde a renovação Educativa. Enquanto os laços de família, amizades e património surgem como o cimento incontrolável de uma hegemonia anárquica, a maçonaria brilha pela perfeição do seu potencial castrador.

 

Justificar a presença de uma sociedade secreta que filtra o acesso aos órgãos de representatividade estatal por essa ter um conteúdo ideológico “puro” que preconiza um padrão ético para o bem de todos não é só democraticamente invalido como assustadoramente condescendente.
Tanto o papel histórico como as matrizes filosóficas desses grupos não representam qualquer valor para o meu entendimento. Uma Ditadura, mesmo que se considere perfeita, nunca poderá ter o apoio de um democrata. Da mesma forma que uma sociedade secreta que cobiça o intervencionismo oculto num contexto democrático não merece esse apoio. Essa contradição não parece porém chocar nenhum dos nossos 200 deputados.

 

Referir a inacreditável brandura do poder político para com as Secretas pela sua traição à pátria é servir demasiada revolta para os que, como eu, se contentariam com muito menos. Entre as nomeações selectivas dos tachos partidários nas futuras privadas e o coming out indeciso dos elefantes que fazem o clima neste país, a fúria dos cidadãos procura incivilidades capazes de derramar o pus da ferida chamada Democracia Portuguesa.

 

Qualquer cidadão independente desejaria que os elementos do seu tecido que se destinam ao ofício político tivessem um mínimo de moralidade para rejeitar qualquer associação de interesses. Aparentemente, a associação de interesses pessoais não se tornou um elemento de perversidade do político senão a condição sine qua none do seu nascimento.

 

O número avassalador de maçons só pode ser considerado como o testemunho da força dessas organizações tentáculo que lutam entre elas através da ilusão democrática pela supremacia de um conjunto não só político como económico e cultural. Os tempos do secretismo em prol do bem do povo ignorante já lá vão; o novo povo educado tornou-se adversário e ameaça a hegemonia serena de autênticas Dinastias familiares.

 

Perante tal cenário, a maçonaria torna-se permeável e assimila para melhor controlar e neutralizar o perigo dos novos galos. Perante a vulnerabilidade dos talentos provenientes da classe média baixa, a supremacia do grupo torna-se uma das poucas vias na obtenção dos meios para os seus fins, arriscando, ao preservar a sua independência, pesadas consequências para as suas merecidas aspirações. Não se lhe pede nada mais em troca do que o abandono do seu sentido de justiça e equidade na eventualidade de proteger ou favorecer outro membro do grupo. Uma carga pouco pesada para qualquer arrivista que se preze.

 

Quem não conseguir ver aqui uma problemática grave só poderá ser despreocupado, conivente ou beneficiado.

 

Se as soluções para o problema não são evidentes, a obrigatoriedade de transparência sobre o assunto surge como a solução mais acessível e democrática. O respeito pela privacidade dos políticos é fraco argumento perante as responsabilidades colossais que esses ocupam mas que muitos parecem querer ignorar. Comprometer os candidatos a funções de Estado a revelar a sua pertence a organizações com intuitos governativos é um sacrifício natural quando comparado com os numerosos compromissos assumidos por outras corporações essenciais ao bem-estar da pátria.  

 

A função política deve começar a institucionalizar não apenas regalias mas também deveres e sacrifícios inerentes ao cargo. Mais do que nunca, o contexto de colonização e miséria actual do país não deixa lugar para o descrédito político. É a Democracia que está em jogo. Portugal não tem desculpas para não tirar lições do seu passado... 


publicado por Mrego às 19:29
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Profetas adormecidos

Os poucos seguidores do Civismo já terão certamente reparado numa perda de ritmo nas publicações. Pondo de lado o natural desgaste do blogismo solitário e outras problemáticas de natureza pessoal a verdade é que os tempos que se dizem de mudança dão pouco espaço para a formulação ou reformulação de qualquer reflexão política. Tudo decorreu até agora como previsto e o vortex especulador aspirou novos países no seu abismo com a constante mais científica possível. 

 

O que poderia ter sido diferente residia no poder de decisão das entidades europeias e da sua capacidade de reacção perante uma situação que não deixa dúvidas. Sabíamos que os governos modernos eram impotentes perante inevitáveis ameaças ecológicas, passamos a saber que os governos simplesmente não existem quando se trata da sua própria sobrevivência a curto prazo.

 

A receita franco-alemã preparada longe de qualquer eleitorado parece não dar conta de qualquer evolução no raciocínio e denotam o total sentimento de invulnerabilidade daqueles que já foram abertamente anunciados como os próximos da lista. Pelo que é possível apreender da comunicação social a UE encaminha-se para o federalismo sem benefícios democráticos. Em vez de contrariar a arbitrariedade dos castigos aplicados pelos mercados, Merkozy pretende colocar esse castigo nas mãos da própria União Europeia permitindo assim que as chicotadas sejam aplicadas localmente por Estados rivais e não por entidades especuladoras estrangeiras. Pouco importa se nem a Alemanha nem a França fazem figura de qualquer superioridade nos dados da sua dívida pública, a Europa das duas velocidades pretende colocar um cerco de arbitrariedade para os “grandes” e uma colonização feroz para os “pequenos”.

Embora possamos lamentar a visão desumana e canibal dos países do “topo”, o escândalo reside na verdade na total passividade e submissão dos países que estão prestes a perder a sua soberania em troca da preservação da “mobília antiga”. Não se vislumbra nem em Portugal, nem em Espanha, nem na Irlanda ou na Itália qualquer vontade de fazer frente comum perante a tentativa de destruição das nossas democracias e alienação dos povos.

 

Sempre defendi o federalismo europeu como um mal necessário… Mas nunca formulado sem novos mecanismos democráticos capazes de permitir e preservar a participação de todos. Essa desigualdade já se efectuava implicitamente na concorrência condicionada a nível económico… Será agora também ditada explicitamente a nível governamental.

 

Onde estão agora os políticos e todos aqueles que acreditavam heroicamente nos valores da democracia e a sua capacidade em criar um mundo melhor? O desejo de gravar a sua geração na história sem medo das consequências? O desafio geracional e a reformulação natural das ideologias? Tudo parece ter sido engolido pelo Medo ou pela morte.

 

As lágrimas da ministra Italiana são tão livres de interpretação como o sorriso da Mona Lisa… Mas gosto de pensar que algures no coração daquilo que era outrora uma jovem militante esperançada morreu a essência da política: A fé na mudança e no poder da Democracia. Uma perda que poderá não significar a necessidade de ficar mas sem dúvida uma boa ocasião para sair. Caros políticos estéreis o povo dá vos tolerância de ponto. Entre o princípio e o fim da crise apenas profetas são requisitados.

publicado por Mrego às 20:35
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

.Maio 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. Tribunal censura denúncia...

. O desafio de Ser (Dia da ...

. Greve

. Cassandra

. Eleftheria i thanatos (Gr...

.

. Perder a face (até perder...

. O preço da blasfémia

. Pedreiros e privilégios

. Profetas adormecidos

.arquivos

. Maio 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

.Os outros

O Arrastão
blogs SAPO

.subscrever feeds