Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

A Esquerda Mole

 

A segunda volta das primárias socialistas sacralizaram ontem François Hollande como candidato para as presidenciais francesas de 2012 derrotando assim a sua adversária, igualmente “ponderada”, Martine Aubry.

 

Ao contrário do Partido Socialista português o PS francês é acima de tudo um partido fortemente plural e que embarca posicionamentos ideológicos que vão da Social-democracia até ao Anti-capitalismo namorador de Extrema-esquerda. O seu trajecto nos últimos anos é aliás comparável com a travessia do deserto do PSD e o seu baile de líderes antes da vitória do Pedro Passos Coelho.

Depois da derrota e demissão de Lionel Jospin em 2002 o PS entrou numa fase prolongada de batalha interna insípida e carreirista que colocou a

Direita numa posição confortável tanto eleitoralmente como a nível do debate parlamentar.

 

Ninguém teria dito há uns anos atrás que o redondo François Hollande poderia alguma vez atingir esse grau de popularidade e destaque dentro do partido. Inquestionavelmente a escolha de Hollande surge mais por defeito do que por verdadeira paixão pelo posicionamento político que representa. A imagem de Sarkozy está gasta e os valores da Direita conservadora já não convencem após 5 anos de uma presidência estéril no seu liberalismo trabalhista e no seu combate contra a delinquência. Sarkozy prometeu trabalhar mais para ganhar mais: Os Franceses trabalharam mais e acabaram por receber o mesmo. Sarkozy prometeu pulverizar a delinquência com uma polícia impiedosa e reforçada: A criminalidade manteve-se e os abusos policiais aumentaram.

 

O golpe de génio do Partido Socialista reside precisamente nas primárias que colocaram a escolha do candidato na população. Numa altura em que o PS de Seguro coloca a estrutura infectada pela descredibilização num “tupperware mediático” surge como evidente que a abertura para a sociedade civil é a única porta de regresso para o partido neste momento. Quando 95% dos socialistas colocavam Sócrates como líder incontestável numa eleição sem oponentes, as primarias socialistas francesas apresentaram 6 candidatos de perfis grandemente diversificados e colocados ao julgamento da população no seu geral, transmitindo a ideia forte de que o Socialismo reside em todos os que se sentem de Esquerda e não apenas numa estrutura militante percepcionada como demasiado dogmática para não dizer interesseira e “lobotomizada”. Unidos por aquilo que aparenta ser uma nostalgia dos tempos Mitterandista e Jospinistas, a população participou massivamente e colocou no PS a legitimidade que o partido necessitava e que não teria conseguido atingir sozinho.

 

Hollande, designado como “Esquerda mole” pela sua adversária pouco atlética (ideologicamente), não apresenta porém qualquer novidade. Mais do que nunca a França está paralisada na mudança e o dinamismo revolucionário do burguês Montebourg, apesar do seu sucesso inesperado, não conseguiu triunfar. Os Socialistas da velha guarda sempre poderão votar no Jean Luc Melenchon, os outros terão que consolar-se com a elasticidade e moderação do Hollande… Nada de novo para os Socialistas portugueses e espanhóis: Hollande será uma presa fácil da tecnocracia Europeia. Todos nós conhecemos o ar pesado e a pasta carregada de um Sócrates ou de um Zapatero após uma reunião em Bruxelas. Na Tecnocracia Europeia a Social-Democracia é uma utopia devorada pelo Euro conformismo de Direita e que é regurgitada numa política de austeridade que fariam passar o Sarkozy por um Bloquista.

Apesar das minhas incertezas, as silhuetas de Hollande e Seguro convergem aos meus olhos da mesma maneira que os seus estilos discursivos se assemelham no seu classicismo pesado.

 

Resta que a França não é Portugal e que a necessidade de um candidato francês autenticamente de Esquerda surge mais evidente para países como Portugal e Grécia do que para os próprios franceses, protegidos pela sua posição preponderante e a sua economia consolidada. Quem pretender uma mudança de fundo revitalizadora dos países devorados pelas dívidas soberanas terão em Jean Luc Melenchon o seu candidato. Hollande será certamente para Portugal um bom passo no aliviar da sua pesada herança mas nada capaz de garantir o regresso ao crescimento através da nossa liberação do estatuto de periferia induzida. Esperemos que a união de todos os candidatos após as primárias simbolize o princípio de uma união de grupo capaz de proteger a Esquerda dos seus desvios centristas. Os Partidos Socialistas Espanhóis e Portugueses dependerão certamente do sucesso desta nova aventura... Se Hollande ganhar as eleições como é evidente…   

 

 

 

publicado por Mrego às 21:29
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