Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011

O Rei e a Morte

 

Hoje Khadafi foi executado pelo povo que tiranizou durante largos anos. Os livros de história recordarão o acontecimento como mais uma data no percurso das civilizações e dos seus ditadores, da mesma forma que os livros de história celebram hoje nos manuais escolares a morte de Luís XVI decapitado na praça pública.

 

O que diferencia a morte de Khadafi do monarca aqui citado reside na omnipresença da tecnologia de informação que divulga e armazena a morte de um símbolo. Uma morte carnal e tão sanguinária como qualquer homicídio. A morte de Saddam já tinha inaugurado o fenómeno com imagens de uma execução amarga que tinha pelo menos a decência de ser a consequência de um julgamento popular e de uma preparação ritualizada. As imagens da morte de Khadafi são bem mais violentas.

 

Cercado pela população armada o ditador ensanguentada arrasta-se para uma morte certa. O seu olhar transmite terror: O seu fim está próximo. Baleado, o seu corpo é molestado através de um pano para dar ao mundo a visão blasfémia do cadáver de um homem deus. A população exulta a sua vingança e o prazer mórbido relembra-nos a alegria fascinada de uma criança que observa o cadáver de um rato morto. Aquilo que deveria ter sido a morte de um símbolo, exposto aos olhos do mundo, não passa da morte patética e barbara de um ser vivo. O prazer da libertação, o alívio das famílias massacradas directa ou indirectamente, o nascimento de um novo futuro para a Líbia, todos esses elementos que seriam a manifestação solene de uma alegria na esperança reencontrada caem por terra perante a natureza patética de uma execução brutal.

 

Não se matou lá nenhum deus, apenas um homem convencido que o era. Os ditadores, líderes, multi-milionários ou homens de fé são inexoravelmente iguais na carne que os compõe e a sua vulnerabilidade perante a morte. O fim de Luís XVI não é para o nosso inconsciente colectivo a morte de um homem mas sim o fim da tirania e o nascimento de uma democracia que mudaria a face do mundo.

 

Poderão chamar isso hipocrisia, mas a verdade é que as imagens reveladas de Khadafi não conseguem provocar em mim nada mais do que uma simpatia culpada pelo homem. Não ao ditador sanguinário. Ao homem apenas. Aquele momento de terror em que o seu corpo exulta miséria e em que o medo e a dor imploram pela clemência que ele próprio não concedeu. Naquele instante Khadafi surge-me, à luz da morte, lavado dos seus pecados.

 

Os líderes mundiais celebraram agora a notícia e não consigo deixar de pensar em todos aqueles que receberam o ditador de braços abertos e com grandes sorrisos, aplicando com todo o rigor as regras de extravagância do líder megalómano. Que terão pensado eles perante essas imagens? Desejo profundamente que tenha sido culpabilidade.

 

publicado por Mrego às 20:49
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2 comentários:
De Ana a 26 de Outubro de 2011 às 17:34
Gostei do artigo...
Acho que poderá gostar deste
http://beleza_e_sabao.blogs.sapo.pt/979.html .
O pequeno texto é de minha autoria, o vídeo obviamente que não...
De Mrego a 26 de Outubro de 2011 às 20:57
Obrigado pelo apoio e pela sugestão.

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