Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Profetas adormecidos

Os poucos seguidores do Civismo já terão certamente reparado numa perda de ritmo nas publicações. Pondo de lado o natural desgaste do blogismo solitário e outras problemáticas de natureza pessoal a verdade é que os tempos que se dizem de mudança dão pouco espaço para a formulação ou reformulação de qualquer reflexão política. Tudo decorreu até agora como previsto e o vortex especulador aspirou novos países no seu abismo com a constante mais científica possível. 

 

O que poderia ter sido diferente residia no poder de decisão das entidades europeias e da sua capacidade de reacção perante uma situação que não deixa dúvidas. Sabíamos que os governos modernos eram impotentes perante inevitáveis ameaças ecológicas, passamos a saber que os governos simplesmente não existem quando se trata da sua própria sobrevivência a curto prazo.

 

A receita franco-alemã preparada longe de qualquer eleitorado parece não dar conta de qualquer evolução no raciocínio e denotam o total sentimento de invulnerabilidade daqueles que já foram abertamente anunciados como os próximos da lista. Pelo que é possível apreender da comunicação social a UE encaminha-se para o federalismo sem benefícios democráticos. Em vez de contrariar a arbitrariedade dos castigos aplicados pelos mercados, Merkozy pretende colocar esse castigo nas mãos da própria União Europeia permitindo assim que as chicotadas sejam aplicadas localmente por Estados rivais e não por entidades especuladoras estrangeiras. Pouco importa se nem a Alemanha nem a França fazem figura de qualquer superioridade nos dados da sua dívida pública, a Europa das duas velocidades pretende colocar um cerco de arbitrariedade para os “grandes” e uma colonização feroz para os “pequenos”.

Embora possamos lamentar a visão desumana e canibal dos países do “topo”, o escândalo reside na verdade na total passividade e submissão dos países que estão prestes a perder a sua soberania em troca da preservação da “mobília antiga”. Não se vislumbra nem em Portugal, nem em Espanha, nem na Irlanda ou na Itália qualquer vontade de fazer frente comum perante a tentativa de destruição das nossas democracias e alienação dos povos.

 

Sempre defendi o federalismo europeu como um mal necessário… Mas nunca formulado sem novos mecanismos democráticos capazes de permitir e preservar a participação de todos. Essa desigualdade já se efectuava implicitamente na concorrência condicionada a nível económico… Será agora também ditada explicitamente a nível governamental.

 

Onde estão agora os políticos e todos aqueles que acreditavam heroicamente nos valores da democracia e a sua capacidade em criar um mundo melhor? O desejo de gravar a sua geração na história sem medo das consequências? O desafio geracional e a reformulação natural das ideologias? Tudo parece ter sido engolido pelo Medo ou pela morte.

 

As lágrimas da ministra Italiana são tão livres de interpretação como o sorriso da Mona Lisa… Mas gosto de pensar que algures no coração daquilo que era outrora uma jovem militante esperançada morreu a essência da política: A fé na mudança e no poder da Democracia. Uma perda que poderá não significar a necessidade de ficar mas sem dúvida uma boa ocasião para sair. Caros políticos estéreis o povo dá vos tolerância de ponto. Entre o princípio e o fim da crise apenas profetas são requisitados.

publicado por Mrego às 20:35
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2 comentários:
De Ricardo Cruz a 12 de Janeiro de 2012 às 20:40
Que imagem impressionante. Consegue dizer-me quem pintou?
De Mrego a 12 de Janeiro de 2012 às 21:21
O pintor norueguês Odd Nerdrum. É de facto, como a maioria das suas obras, uma tela fantástica. O Renascentismo ao serviço de um novo de mito.

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