Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012

Pedreiros e privilégios

 Sempre encarei a maçonaria como um tópico caricato de conversas com o meu avô reaccionário. Uma espécie de chavão que cristaliza o seu medo da existência de uma paroquia ateísta secreta. Inútil dizer que o contexto noticioso alterou bastante essa percepção.
Por conhecer a maçonaria nos seus termos históricos e por ter nascido numa sociedade onde tais formalidades já foram há muito trocadas pelos convívios nas praças recreativas de “excelência”, nunca encarei o tema com grande seriedade nem nunca ponderei a sua eventual consequência nos dias de hoje.

 

O número avassalador de deputados que prestaram juramento de obediência e serventia para uma dessas organizações secretas foi certamente para muitos portugueses “um murro no estômago”… Para outros, como o meu avô, terá sido apenas uma marca deixada pelo seu bicho papão. Do lado da “Elite” não houve porém qualquer surpresa para além do facto de ter sido apanhado em flagrante algo com o qual todos já se parecem ter conformado.

 

Num país onde a méritocracia e incorruptibilidade é gangrenada por teias invisíveis mas que a opinião pública sente, a maçonaria veio preencher a necessidade de concreto, capaz não só de provocar a indignação como justificar o mimetismo em menor escala da selvajaria egocêntrica daqueles que governam o país.

 

O combate pela igualdade de oportunidades raramente pareceu tão desesperado desde a renovação Educativa. Enquanto os laços de família, amizades e património surgem como o cimento incontrolável de uma hegemonia anárquica, a maçonaria brilha pela perfeição do seu potencial castrador.

 

Justificar a presença de uma sociedade secreta que filtra o acesso aos órgãos de representatividade estatal por essa ter um conteúdo ideológico “puro” que preconiza um padrão ético para o bem de todos não é só democraticamente invalido como assustadoramente condescendente.
Tanto o papel histórico como as matrizes filosóficas desses grupos não representam qualquer valor para o meu entendimento. Uma Ditadura, mesmo que se considere perfeita, nunca poderá ter o apoio de um democrata. Da mesma forma que uma sociedade secreta que cobiça o intervencionismo oculto num contexto democrático não merece esse apoio. Essa contradição não parece porém chocar nenhum dos nossos 200 deputados.

 

Referir a inacreditável brandura do poder político para com as Secretas pela sua traição à pátria é servir demasiada revolta para os que, como eu, se contentariam com muito menos. Entre as nomeações selectivas dos tachos partidários nas futuras privadas e o coming out indeciso dos elefantes que fazem o clima neste país, a fúria dos cidadãos procura incivilidades capazes de derramar o pus da ferida chamada Democracia Portuguesa.

 

Qualquer cidadão independente desejaria que os elementos do seu tecido que se destinam ao ofício político tivessem um mínimo de moralidade para rejeitar qualquer associação de interesses. Aparentemente, a associação de interesses pessoais não se tornou um elemento de perversidade do político senão a condição sine qua none do seu nascimento.

 

O número avassalador de maçons só pode ser considerado como o testemunho da força dessas organizações tentáculo que lutam entre elas através da ilusão democrática pela supremacia de um conjunto não só político como económico e cultural. Os tempos do secretismo em prol do bem do povo ignorante já lá vão; o novo povo educado tornou-se adversário e ameaça a hegemonia serena de autênticas Dinastias familiares.

 

Perante tal cenário, a maçonaria torna-se permeável e assimila para melhor controlar e neutralizar o perigo dos novos galos. Perante a vulnerabilidade dos talentos provenientes da classe média baixa, a supremacia do grupo torna-se uma das poucas vias na obtenção dos meios para os seus fins, arriscando, ao preservar a sua independência, pesadas consequências para as suas merecidas aspirações. Não se lhe pede nada mais em troca do que o abandono do seu sentido de justiça e equidade na eventualidade de proteger ou favorecer outro membro do grupo. Uma carga pouco pesada para qualquer arrivista que se preze.

 

Quem não conseguir ver aqui uma problemática grave só poderá ser despreocupado, conivente ou beneficiado.

 

Se as soluções para o problema não são evidentes, a obrigatoriedade de transparência sobre o assunto surge como a solução mais acessível e democrática. O respeito pela privacidade dos políticos é fraco argumento perante as responsabilidades colossais que esses ocupam mas que muitos parecem querer ignorar. Comprometer os candidatos a funções de Estado a revelar a sua pertence a organizações com intuitos governativos é um sacrifício natural quando comparado com os numerosos compromissos assumidos por outras corporações essenciais ao bem-estar da pátria.  

 

A função política deve começar a institucionalizar não apenas regalias mas também deveres e sacrifícios inerentes ao cargo. Mais do que nunca, o contexto de colonização e miséria actual do país não deixa lugar para o descrédito político. É a Democracia que está em jogo. Portugal não tem desculpas para não tirar lições do seu passado... 


publicado por Mrego às 19:29
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1 comentário:
De Pedro a 12 de Janeiro de 2012 às 20:19
Boa tarde,

O Civismos está novamente em destaque nos Blogs do SAPO, em http://blogs.sapo.pt

Boa continuação!

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