Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

O preço da blasfémia

 

O Afastamento do pensamento político da reflexão moral e filosófica é algo que podemos constatar todos os dias. Surge mais evidente perante uma ou outra proposta mas no caso português a acumulação de incongruências, inconstâncias e contra-sensos ultrapassa o simples quadro legal. Todas estas blasfémias desgastaram o carácter divino da Republica Democrática e tornaram o povo Ateu… E tudo para quê?
Neste tempo de crise o cinismo estratega parece afastar qualquer problemática moral em nome da preservação de um “Bem” que se torna cada vez mais indistinto. Por cada novo suposto “pragmatismo” Portugal dá um passo mais perto não apenas da sua morte económica mas também da sua morte ideológica.

 

Aponta-se a rectidão moral e ideológica como redutora e demagógica em oposição com o oportunismo responsável. Gostaria de responder a todos esses tecnocratas da vida que se procurar concretizar a perfeição por meios utópicos é loucura, agir em nome de uma utopia não o é. As nossas Republicas Europeias vivem de aliás de uma bem conhecida: A Democracia. É em nome dessa utopia que os povos são sujeitados ao pragmatismo que tem ganho terreno e que chegou ao ponto de considerar a limitação democrática como a opção política mais razoável para a Democracia.

 

De que motor se move o Portugal de hoje? De que ideal se faz a Europa? As palavras destoam claramente dos actos e o “pragmatismo” surge como um pensamento amorfo feito de lobbismo e benefícios pessoais numa matriz consumista.
Gostaria de demonstrar aqui, com um exemplo simples, que o denegrir de princípios não faz do “pragmatismo desapaixonado” benéfico senão prejudicial e isso de forma duradoura.

 

Não faltam temas “nobres” para dar provas disso mas vou utilizar uma das propostas que tem agitado o tecido eleitoral nos últimos dias: A manutenção de parte do subsídio de desemprego como compensação para uma nova função de valor inferior.

 

Esta medida é mais uma vez o exemplo de uma táctica pragmática que “brinca” a dinamização económica através de chavões. O pragmatismo não reside aqui na aplicação desse conceito ingénuo em prol de uma fé política, senão no “pragmatismo” que consiste em agradar os elementos da Troika independentemente da medida aplicada. O Triumvirate faz aqui de ingénuo ao serviço de uma utopia amorfa e que procura aplicar as mesmas soluções que provocaram o problema. Conscientes ou não do fim do Império, é em nome do pragmatismo que todos os actores

desempenham os seus papéis sem qualquer motivação para além do seu compromisso com esta tragicomédia.

 

Numa Democracia que funciona um trabalhador não deveria precisar de qualquer incentivo para trabalhar. O labor é um dos elementos incontornáveis tanto da sobrevivência como do progresso. Como justificar a inacção apenas pela intransigência perante uma função abaixo da suas expectativas? Tal atitude é tão parasitária como o abastecido sustento do património e do Capital com a qual a Esquerda se opõe. Um emprego pode representar uma experiencia temporária antes de surgir uma oportunidade melhor.

 

É natural que essa concepção justa suscite expectativa por parte dos que fazem a Economia. O problema, é que essa concepção colide com uma realidade injusta e na qual o trabalho não garante nem um sustento digno nem corresponde a uma justa repartição das riquezas.
Enquanto a tabela salarial deveria ter sido actualizada para corresponder as necessidades do ideal democrático socialista através do Estado Social e da garantia do sustento essencial, a riqueza produzida escapou através dos rendimentos do capital, mantendo-se o salário baixo na expectativa de que algum dia esse sacrifício nos traria benefícios, como se tal fosse o único elemento de atractividade que um país possa ter. Ao congelar a evolução dos salários deixando escapar a riqueza produzida, o Estado endividou-se e delegou aos bancos privados não só a sobrevivência do Estado Social como o acesso das aspirações necessárias do povo através do crédito. Assinou tratados em contradição com o seu ideal nacional e cultivou um discurso contrário aos actos e que acabou por tornar-se insustentável.

 

Este assobio para o lado selou uma maldição que promete ter efeitos nefastos tão duradouros como o Salazarismo. A reconstrução e o progresso de que o país precisa esta condenada a um longo período de sofrimento bem superior à estratégia estéril proposta pelo centrão.

 

Esta conclusão poderia ser menos amargada não fosse o exemplo dos países que perante a crise demonstram robustez. Todos esses países possuem em comum uma distribuição equitativa do rendimento por comprometer salários adequados as aspirações dos cidadãos através do pagamento elevado de impostos sobre o trabalho. Ao comprometer a sua nação a um ecossistema exigente a Educação produz os talentos capazes do génio criativo que a Economia precisa. Confrontam as empresas ao pagamento de impostos, reduzindo os impostos sobre as empresas (demasiado incontroláveis nos dias de hoje) e reforçando o imposto sobre o trabalho que representa um valor consistente no contexto internacional. Ao comprometer as empresas a melhores salários é parte do dinheiro destinado a fuga fiscal que acaba por ser investido no trabalhador para depois ser colectado pelo Estado de forma mais eficiente. Todo este ecossistema justo compromete não só a classe política como o tecido eleitoral a um código moral exigente dos quais todos beneficiam.

 

Entretanto do lado dos países saídos de fresco do fascismo negociamos diariamente com as excepcionalidades. Para colocar uma população a exercer uma das suas funções fundamentais, o contribuinte deve pagar mais uma vez de forma a garantir a sobrevivência dos assalariados. Tudo porque no passado, em nome de um suposto ecossistema frágil e com o qual não se deveria interagir para possibilitar o desejado progresso. Aconteceu precisamente o contrário e Portugal depende ainda muito do tecido económico proveniente dos tempos de autonomia monetária e política.  

 

Perante esta nova proposta insustentável num país em crise, não subsiste qualquer dúvida de que estamos perante a promessa de uma corrida aos abusos (o prazo de 6 meses coincide em pleno com a duração do contrato de trabalho). De Cavaco para Passos nada parece ter melhorado substancialmente e a Direita Portuguesa continua péssima perante a sua ideologia e perante outras Direitas Europeias independentemente de, como é o meu caso, sermos de outra sensibilidade política.

 

No contexto de crise actual o argumento demagógico de que os desempregados não trabalham porque não querem torna-se obsceno e grosseiro. O governo retirará tanto proveito como a população da sua demagogia infundada: Pouco ou quase nada.

 

O acordo de paz social assinado é o reflexo de uma sociedade laboral dividida que interage hipocritamente independentemente de qualquer ideal. Poupem-nos o triunfalismo chauvinista. Esse merece mais do que ser refém da mediocridade. O acordo assinado é apenas mais um passo na espiral niilista governativa perante um povo ateu e que dá cava vez mais de querer o regresso de uma religião que pensávamos ter enterrada.  

publicado por Mrego às 20:56
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