Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

Perder a face (até perder a cabeça)

 

Na sequência do texto anterior, as palavras do nosso caro Presidente Cavaco Silva permitem-me fazer uma transição oportuna sobre a necessidade da moral na sua dimensão iconográfica. Referi aqui a necessidade de virtude no acto, quero agora salientar a necessidade de virtude na “plástica”.

 

A função de Presidente da República em Portugal, tal como a conhecemos nesta ou noutras Repúblicas, não difere em muito da visão monarquista que considera necessário uma simbologia carnal na representação Republicana. Enquanto noutros países a função simbólica do presidente não é diferenciável de uma política governativa, o PR português assume-se como símbolo impotente da República e ao qual foi conferido diversos instrumentos que ele terá que evitar para preservar a coerência e prestígio republicano. É por não fazer nada que um Presidente da
Republica demonstra a passividade necessária para não ser alvo de qualquer crítica e conseguir federar o maior número de português em volta da sua figura de “mascote”.

 

Para marcar o cunho da Republica Democrática, esse monarca corresponde aos critérios essenciais da mesma: Temporário e sem direito de sangue.

 

Há utilidade nessa função… Nem que seja na teoria, mas não é a meu ver a simbologia mais eficiente para o nosso modelo pois falta-lhe uma
componente essencial: A legitimidade pelo acto.  Numa construção social que glorifica a identidade do Homem pelos seus actos, a passividade burguesa do presidente perturba. É de esperar passividade de uma bandeira de tecido… Não é compreensível o prestígio pela inacção de um cidadão.

 

Por outro lado não valorizo sequer a necessidade de uma simbologia carnal numa Republica Democrática. O símbolo de um Estado Democrático representa-se pelo rosto invisível dos milhões que compõem o seu eleitorado e que pelo acto individual do voto, repercuta-se e amplifica-se até ganhar
contornos civilizacionais. É o paradoxo de um voto não contar e porém todos serem importantes. Há algo de quase metafísico nessa questão e que poderia ser muito mais valorizada pois a sua impalpável natureza confere um símbolo Republicano de natureza quase divina.  

 

Voltando ao Cavaco, seria inútil adicionar mais palavras aos numerosos comentários que denunciaram a evidente insensibilidade social do Presidente no pior dos contextos. Apenas quero acrescentar que esse comentário, aparentemente anedótico e tendo em conta a utilidade puramente simbólica da função, é matéria mais do que suficiente para um pedido demissão.

 

Ao perder a credibilidade e ao falhar inexplicavelmente uma das suas raras comunicações, o Presidente não se encontra neste momento capaz
de exercer o seu cargo: Representar os cidadãos da Republica Democrática. A natureza temporária permite precisamente essa possibilidade.

 

Mais interessante ainda foi a resposta da população e que veio confirmar a natureza passiva do eleitorado assim como a sua completa desilusão perante o seu sistema político.

 

Multiplicaram-se os movimentos, as frases de humor e outras caricaturas. Imprimiram-se t-shirts e fizeram-se encenações grotescas… O cidadão, fatalista, exorciza a sua alienação governativa e faz da sua desgraça lenha para o aquecer neste inverno. A Sátira torna-se o vírus de um prazer masoquista que namora com a insanidade e demonstra mais uma vez que o humor é o maior representante do niilismo político da nossa geração.

 

A natureza violenta dessa machadada na confiança demonstra que há ainda um fundo de esperança atrás dos discursos fatalistas. Os portugueses já não acreditam nos seus políticos sem precisar de argumentos. Alimentar de forma explícita esse pensamento com provas inquestionáveis é atacar a ultra sensível e pequena parte de ilusão que subsiste em muitos. Quando essa pequena parte for derrubada por completo, o povo seguirá qualquer outro profeta independentemente da sua cor desde que simbolize ruptura com a Democracia. O perigo é evidente e é nesse sentido que tenho alertado várias vezes para a sua existência. É com base nesse raciocínio que a demissão de Cavaco me parece uma opção sensata.

publicado por Mrego às 14:07
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