Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

Eleftheria i thanatos (Gregos e Troikianos)

A questão Grega tem agitada, um pouco mais do que o habitual, a actualidade política desta semana.

 

Em pleno período de negociação do seu previsível novo resgate perante a sua previsível recensão e previsível incapacidade de financiamento, surgem varias problemáticas que, não sendo novas, suscitam a necessidade de reafirmação de todos os elementos do xadrez político.

 

Passo Coelho reafirmou que o acordo era para cumprir seja “qual for o custo” e que Portugal não era a Grécia. A Europa (Merkozy) reafirmou que a austeridade é o único caminho possível para mais federalismo e que a Grécia deveria consequentemente aumentar a dose do “remédio” (veneno). Camilo Lourenço, economista e embaixador da política orçamental troikiana na comunicação social em regime diário, reafirmou que os Gregos eram “ingovernáveis” e que deveriam sair pois estavam a prejudicar o bom rumo do novo projecto europeu. Em tom de resposta, os Gregos reafirmaram o seu desejo de Democracia e liberdade de definir o rumo do seu destino.

 

Poderia ter partilhado mais umas notícias no grupo facebook do Civismo… Farei também eu o mesmo exercício de reafirmação.

 

No que se refere a atitude portuguesa, quero denunciar a prepotência desesperada e cobarde do discurso que, no limiar da xenofobia, apresenta o povo Grego como um agente infeccioso ao qual Portugal não se pode comparar, sendo antes o nosso país uma ligeira constipação que por casualidade anda viciada em antibióticos.

 

O sentimento anti-helénico não merece resposta da minha parte. Quem não reconhece dignidade a um povo que reclama a sua, precisa de abrir um dicionário. Quem despreza um povo que procura a sua dignidade não terá dificuldade em digerir o meu desprezo. A reacção contra a xenofobia é de facto uma composição de uma simplicidade simétrica.

 

O desdém e desgosto ornamental da actual estrutura governativa já merecem mais a minha atenção pela desonestidade intelectual que representam. Portugal não apresenta em nenhum aspecto semelhanças com a estrutura Económica Irlandesa. A robustez do país perante a austeridade tem sido não só um sucesso muito relativo como a prova de uma solidez económica anterior que advém de múltiplas condicionantes. Nem a força de vontade nem a submissão perante a austeridade figuram como elementos condicionantes deste caso de “sucesso”.

 

A febre insana da tecnocracia social-democrata inspira muitas imagens, metáforas ou comparações.

 

Portugal enfrenta nu um inverno rigoroso. Ao seu lado está a Irlanda de camisola e a Grécia nua prestes a morrer de frio. O Lusitano enche o peito e faz o confiante: Está convencido de que a sua pele é mais dura do que a Helénica. Para mostrar a sua força despreza a Grécia e goza-lhe o fraco epiderme “Bem pode morrer”. No corpo de Portugal porém surgem todos os sintomas da hipotermia. Conhece os bem, são os mesmos que teve a vizinha desprezada. São muitos os que dificilmente passarão o inverno. São muitos os que morrerão sem se conhecer.

 

Perdoam-me esta infantilidade mas os factos concretos já não precisam de apresentação. Tanto os Portugueses como os Gregos não precisam das análises de jornais Americanos. A aplicação das medidas e a crise que delas nasce é algo que os dois povos sentem na pele. Portugal não cumprirá as metas do acordo e não conseguirá “pagar o que deve” nos moldes actuais. Quem valoriza o humanismo pela solidariedade na condição humana não convive bem com a ideia de deixar a arrogância e o individualismo em epitáfio. Quem valoriza a gestão estratégica não convive bem com oportunidades diplomáticas desperdiçadas.

 

Reafirmo que o deficit Democrático explorado pela comunidade europeia através da chantagem torna ainda mais impraticável o desastroso projecto. Camilo Lourenço tem razão quando diz que os Gregos são ingovernáveis. Inexplicavelmente, é vício de democratas querer ser governado apenas por si mesmo. Talvez seja porque a subjugação mercantil tem tendência a funcionar muito menos quando se deixa de poder comprar seja o que for.

 

O que acontece é que quando já não há dinheiro para comprar objectos as pessoas tendem a querer comprar dignidade. Tem um preço elevado é verdade mas não precisa de capital para ser adquirido.

 

São assim as pessoas: sedentas de objectos e valores.

 

Hoje há mais uma greve geral na Grécia ocupada. Imagino que a primeira terá atraída muitos reivindicadores do material. Atrevo-me a pensar que hoje terá mobilizada muitos reivindicadores de valores.

 

Eleftheria i thanatos, Liberdade ou Morte, é o lema da Grécia. O governo, representante do povo, já não pode agradar aos Gregos e aos Troikianos… Talvez seja por isso que esses Gregos agradam-me.

publicado por Mrego às 16:37
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