Quinta-feira, 8 de Março de 2012

O desafio de Ser (Dia da Mulher)

Quero aproveitar hoje o meu intervalo de abastecimento calórico, para depositar algumas palavras sobre a condição feminina neste Dia Internacional da Mulher.

 

Primeiro deixemos de lado o propósito essencial desse dia de sensibilização: A luta pela dignidade e igualdade de oportunidades nos países terceiro-mundistas. Não existe nenhum argumento racional nem palavras para classificar a consternação provocada pelos moldes opressores que algumas sociedades, já à partida desiguais, selam o destino da mulher e a sua existência em moldes que só podem ser comparados com o tratamento do gado.
Quando a indignação é demasiado grande essa exige sempre mais atos do que palavras.

O que eu quero abordar aqui é a posição da mulher na sociedade portuguesa e, de modo geral, de todas as cidadãs de sexo feminino que vivem em Republicas que não condicionam constitucionalmente as suas aspirações pelo seu género.
Este tema exige não só cautela como é sujeito a um grande relativismo precisamente por responder ao único elemento imprevisível e desafiador de qualquer democracia: A opinião pública.

 

Analisando a situação atual, a descriminação e o condicionamento das mulheres na cultura contemporânea é influenciada por uma teia confusa que integra tanto vestígios tradicionais como fenómenos modernos.
Por tradicional entende-se o peso matriarcal que a encerra num círculo reprodutor que condiciona as suas aspirações essenciais: A procriação e educação da sua progenitura. Entende-se igualmente como tradicional o peso de uma cortesia que assenta algures entre o prestigio masculinizante da condescendia e uma forma não pronunciada de sedução e necessidade de sexualização constante no relacionamento interpessoal entre homem e mulher.

 

Por moderno entende-se o fenómeno mais amplo da mercantilização do relacionamento interpessoal e a ultra valorização do Ego. Esse proxenetismo visual que pretende dar a tudo e todos uma constante resposta para qualquer desejo seja esse uma breve sessão onanista ou um consolo mais amplo das suas expectativas emocionais. Se há dinheiro em jogo haverá sempre alguém para jogar e alguém para apostar porque a nossa definição de liberdade embarca as possibilidades individuais de cada um e essas passam irremediavelmente pela comercialização, não só das suas ideias, como também da sua própria dignidade.

 

Gostaria de poder dar uma resposta mais completa mas é nesse ponto do raciocínio que acaba a minha legitimidade para refletir sobre o papel da mulher. Não sou nem cresci como mulher. Cabe as portuguesas decidir preencher este espaço vazio com base na sua experiencia pessoal. Refletir sobre si e sobre o mundo é algo de humano e na profusão dos pensamentos e debates a expressão dos sentimentos sobre si e a sua experiencia são uma prerrogativa civilizacional independentemente do sexo: É uma luta pessoal com repercussões coletivas.

 

O que eu posso sim comentar é a minha posição como homem nesta sociedade. Por existirem igualmente pressões sociais e expectativas no género masculino, perceciono um possível paralelismo que nutre um inimigo comum aos dois sexos: O peso dos outros na liberdade individual.
Quem duvidar desse facto pode observar a evidente xenofobia que pesa sobre os homossexuais de sexo masculino. Se o género fosse imune a essa avaliação como explicar a violência que impõe a homens as suas opções sexuais? Como justificar o gozo provocado pela presença de homens em tarefas consideradas femininas? Como explicar o desprezo por sentimentos femininos ou posturas alternativas dentro do seu próprio casal?
Essas pressões não só existem como são eficazes. Condicionam os homens nas suas expectativas. Moldam os seus rituais de interação e coloca o distanciamento, o machismo e a libertinagem como únicos elementos de glorificação e destaque pessoal.

 

A meu ver a Liberdade é um conceito Republicano. É um diálogo que mantemos com a parte racional do nosso país: A Democracia. O conseguimento da não existência de descriminação no seu eixo fundamental representa uma porta aberta… Cada um é livre de a atravessar. Não há luta de sexos, apenas lutas de afetos. Entre amores não correspondidos, expectativas sociais e compromissos com a nossa cadeia de afetos a liberdade de sermos nós próprios está tão condicionada no sexo como em qualquer outra temática.

 

Como homem e como ser humano anseio pelo direito de ser eu próprio tanto nas minhas escolhas como nos meus pensamentos. Uma página branca de mim mesmo que escrevo com a ajuda de quem autorizo e com aquilo que gosto de pensar ser da minha autoria. No caminho dessa escrita surgem muitos adversários e desafios e é com eles que eu luto, por vezes perdendo, por vezes vencendo. A crueldade aplicada a qualquer ser humano e a sobreposição pessoal sobre o outro é um fenómeno presente na nossa cultura atual e que eu repugno secamente. Porém a estrutura legal do meu país satisfaz-me por não sentir, talvez erradamente, os entraves do género. É este sentimento e este privilégio que eu gostaria de ver na mão de todas as mulheres deste mundo neste dia como nos 364 dias restantes.

publicado por Mrego às 14:09
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1 comentário:
De carlos lima a 14 de Abril de 2012 às 19:51
cumungo inteiramente esta maneira de uer a vida , as coisas e as pessoas em causa; E assim , se nota a grandesa das pessoas .!

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