Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

V for vitalício

 

A nova corrente de austeridade alimentada por uma matriz vazia e absurda colocou o Governo na posição de um deus das calamidades. O Executivo de Passos Coelho, longe de apresentar qualquer postura Europeia ou planificação realista da resolução do problema Económico, delega as responsabilidades que importam para a “ocupação” e focaliza a sua atenção numa repartição justa da sua criatividade destrutiva. Ao contrário de Deus que atinge demasiadas vezes os mesmos, Passos Coelho quer-se um deus dos dilúvios repartidos para que a população possa entender e aceitar o seu trabalho. “Não culpem a morte pois essa apenas faz o seu ofício!”

 

Está no ADN do povo português a necessidade da miséria como barómetro do “normal”. Esse pensamento da involução purificadora é aliás o motor do apoio governamental e o núcleo duro de um marketing que pretende dar a ilusão de sacrifícios repartidos de forma a consolar as populações maltratadas. Se a miséria é o estado natural não será então legítimo todos seguirem-lhe o critério? Enquanto o barco se afunda Portugal não procura por uma via de escape mas pretende acima de tudo evitar que alguns possam subir a bordo dos salva-vidas: Se eu for a baixo vamos todos e isto consola-me.

 

A questão do fim das pensões vitalícias vem agora muito tarde, não só por ter sido iniciada pelo Sócrates (feito do qual nunca beneficiou publicidade) mas também porque tornam demasiado evidente no contexto actual a desonestidade da proposta tão fraca nas suas consequências financeiras como em símbolos. O massacre da classe média baixa nunca se poderá assemelhar ao fim da pensão de um indivíduo que beneficia já de amplos rendimentos oriundos do privado. Essa propaganda do esforço comum é descaradamente condescendente e reveladora da visão de uma classe política para com o seu povo. Cortem o dedo ao carrasco que o povo logo aceitará que lhe façam o mesmo ao pescoço.

 

Este barulho tardio poderá ou não surtir efeitos. O povo português ainda não teve tempo para desculpabilizar-se do homem que elegeram e as mentiras são ainda demasiado frescas para este tipo de gimmicks não serem utilizadas para limpar consciências de um vasto eleitorado.

 

É porém fundamental as questões essenciais serem impostas pela opinião pública e este tipo de sacrifícios de pacotilha serem recebidos com frieza e desdém. De símbolos este país está cheio… Nenhum deles paga as facturas.     

publicado por Mrego às 22:36
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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011

O Rei e a Morte

 

Hoje Khadafi foi executado pelo povo que tiranizou durante largos anos. Os livros de história recordarão o acontecimento como mais uma data no percurso das civilizações e dos seus ditadores, da mesma forma que os livros de história celebram hoje nos manuais escolares a morte de Luís XVI decapitado na praça pública.

 

O que diferencia a morte de Khadafi do monarca aqui citado reside na omnipresença da tecnologia de informação que divulga e armazena a morte de um símbolo. Uma morte carnal e tão sanguinária como qualquer homicídio. A morte de Saddam já tinha inaugurado o fenómeno com imagens de uma execução amarga que tinha pelo menos a decência de ser a consequência de um julgamento popular e de uma preparação ritualizada. As imagens da morte de Khadafi são bem mais violentas.

 

Cercado pela população armada o ditador ensanguentada arrasta-se para uma morte certa. O seu olhar transmite terror: O seu fim está próximo. Baleado, o seu corpo é molestado através de um pano para dar ao mundo a visão blasfémia do cadáver de um homem deus. A população exulta a sua vingança e o prazer mórbido relembra-nos a alegria fascinada de uma criança que observa o cadáver de um rato morto. Aquilo que deveria ter sido a morte de um símbolo, exposto aos olhos do mundo, não passa da morte patética e barbara de um ser vivo. O prazer da libertação, o alívio das famílias massacradas directa ou indirectamente, o nascimento de um novo futuro para a Líbia, todos esses elementos que seriam a manifestação solene de uma alegria na esperança reencontrada caem por terra perante a natureza patética de uma execução brutal.

 

Não se matou lá nenhum deus, apenas um homem convencido que o era. Os ditadores, líderes, multi-milionários ou homens de fé são inexoravelmente iguais na carne que os compõe e a sua vulnerabilidade perante a morte. O fim de Luís XVI não é para o nosso inconsciente colectivo a morte de um homem mas sim o fim da tirania e o nascimento de uma democracia que mudaria a face do mundo.

 

Poderão chamar isso hipocrisia, mas a verdade é que as imagens reveladas de Khadafi não conseguem provocar em mim nada mais do que uma simpatia culpada pelo homem. Não ao ditador sanguinário. Ao homem apenas. Aquele momento de terror em que o seu corpo exulta miséria e em que o medo e a dor imploram pela clemência que ele próprio não concedeu. Naquele instante Khadafi surge-me, à luz da morte, lavado dos seus pecados.

 

Os líderes mundiais celebraram agora a notícia e não consigo deixar de pensar em todos aqueles que receberam o ditador de braços abertos e com grandes sorrisos, aplicando com todo o rigor as regras de extravagância do líder megalómano. Que terão pensado eles perante essas imagens? Desejo profundamente que tenha sido culpabilidade.

 

publicado por Mrego às 20:49
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Terça-feira, 18 de Outubro de 2011

O negreiro de lusitanos

 

O comentário do presidente do "Concelho para a promoção da Industrialização”, Francisco Van Zeller, é elucidativo da burguesia empresarial portuguesa que paralisa o crescimento económico português desde que o homem inventou a fábrica.  

Se o seu apelido não lhe cheirar a bacalhau é porque o muy nobre Van Zeller é um português de adopção que se sabe de linhagem directa com um comerciante holandês do século XVIII e uma Alemã de pedigree.

 

Afortunadamente o esperma ariano é tão certeiro que todos os homens da família conseguiram continuar de direito a vencer todas as barreiras da meritocracia pela sua especial qualidade através, com grande casualidade, da empresa familiar ligada ao sector da metalurgia.

Para Zeller Portugal deveria poder exportar como a Bélgica mas não com o mesmo salário! 1415 Euros de salário mínimo não é impedimento para uma exportação dinâmica para um germânico mas é uma utopia para o pelo grosso de um mono ibérico. Esse com os seus 475 euros ganha demasiado e precisaria de perder mais uns meses da sua poupança governamentalmente induzida para desenvolver a exportação do seu povo primata.

 

Felizmente há em Portugal visionários para mostrar-nos a direcção. A salvação da economia nacional passa pela diminuição dos custos, os únicos capazes de evitar a falência ao babuíno aristocrático empresarial português.

Casos de sucesso como estes fazem-nos querer mais visionários e sonhar com uma Troika nacionalizada, de chicote na mão, a endireitar os anões de bigode pelos séculos dos séculos. Se os liliputianos dos arrozais conseguem há esperança no português.



publicado por Mrego às 20:24
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Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

A Esquerda Mole

 

A segunda volta das primárias socialistas sacralizaram ontem François Hollande como candidato para as presidenciais francesas de 2012 derrotando assim a sua adversária, igualmente “ponderada”, Martine Aubry.

 

Ao contrário do Partido Socialista português o PS francês é acima de tudo um partido fortemente plural e que embarca posicionamentos ideológicos que vão da Social-democracia até ao Anti-capitalismo namorador de Extrema-esquerda. O seu trajecto nos últimos anos é aliás comparável com a travessia do deserto do PSD e o seu baile de líderes antes da vitória do Pedro Passos Coelho.

Depois da derrota e demissão de Lionel Jospin em 2002 o PS entrou numa fase prolongada de batalha interna insípida e carreirista que colocou a

Direita numa posição confortável tanto eleitoralmente como a nível do debate parlamentar.

 

Ninguém teria dito há uns anos atrás que o redondo François Hollande poderia alguma vez atingir esse grau de popularidade e destaque dentro do partido. Inquestionavelmente a escolha de Hollande surge mais por defeito do que por verdadeira paixão pelo posicionamento político que representa. A imagem de Sarkozy está gasta e os valores da Direita conservadora já não convencem após 5 anos de uma presidência estéril no seu liberalismo trabalhista e no seu combate contra a delinquência. Sarkozy prometeu trabalhar mais para ganhar mais: Os Franceses trabalharam mais e acabaram por receber o mesmo. Sarkozy prometeu pulverizar a delinquência com uma polícia impiedosa e reforçada: A criminalidade manteve-se e os abusos policiais aumentaram.

 

O golpe de génio do Partido Socialista reside precisamente nas primárias que colocaram a escolha do candidato na população. Numa altura em que o PS de Seguro coloca a estrutura infectada pela descredibilização num “tupperware mediático” surge como evidente que a abertura para a sociedade civil é a única porta de regresso para o partido neste momento. Quando 95% dos socialistas colocavam Sócrates como líder incontestável numa eleição sem oponentes, as primarias socialistas francesas apresentaram 6 candidatos de perfis grandemente diversificados e colocados ao julgamento da população no seu geral, transmitindo a ideia forte de que o Socialismo reside em todos os que se sentem de Esquerda e não apenas numa estrutura militante percepcionada como demasiado dogmática para não dizer interesseira e “lobotomizada”. Unidos por aquilo que aparenta ser uma nostalgia dos tempos Mitterandista e Jospinistas, a população participou massivamente e colocou no PS a legitimidade que o partido necessitava e que não teria conseguido atingir sozinho.

 

Hollande, designado como “Esquerda mole” pela sua adversária pouco atlética (ideologicamente), não apresenta porém qualquer novidade. Mais do que nunca a França está paralisada na mudança e o dinamismo revolucionário do burguês Montebourg, apesar do seu sucesso inesperado, não conseguiu triunfar. Os Socialistas da velha guarda sempre poderão votar no Jean Luc Melenchon, os outros terão que consolar-se com a elasticidade e moderação do Hollande… Nada de novo para os Socialistas portugueses e espanhóis: Hollande será uma presa fácil da tecnocracia Europeia. Todos nós conhecemos o ar pesado e a pasta carregada de um Sócrates ou de um Zapatero após uma reunião em Bruxelas. Na Tecnocracia Europeia a Social-Democracia é uma utopia devorada pelo Euro conformismo de Direita e que é regurgitada numa política de austeridade que fariam passar o Sarkozy por um Bloquista.

Apesar das minhas incertezas, as silhuetas de Hollande e Seguro convergem aos meus olhos da mesma maneira que os seus estilos discursivos se assemelham no seu classicismo pesado.

 

Resta que a França não é Portugal e que a necessidade de um candidato francês autenticamente de Esquerda surge mais evidente para países como Portugal e Grécia do que para os próprios franceses, protegidos pela sua posição preponderante e a sua economia consolidada. Quem pretender uma mudança de fundo revitalizadora dos países devorados pelas dívidas soberanas terão em Jean Luc Melenchon o seu candidato. Hollande será certamente para Portugal um bom passo no aliviar da sua pesada herança mas nada capaz de garantir o regresso ao crescimento através da nossa liberação do estatuto de periferia induzida. Esperemos que a união de todos os candidatos após as primárias simbolize o princípio de uma união de grupo capaz de proteger a Esquerda dos seus desvios centristas. Os Partidos Socialistas Espanhóis e Portugueses dependerão certamente do sucesso desta nova aventura... Se Hollande ganhar as eleições como é evidente…   

 

 

 

publicado por Mrego às 21:29
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Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011

O esforço de todos é o orgulho de poucos

É difícil entender como na Direita Portuguesa a austeridade é sempre servida com lágrimas de crocodilo e o peito cheio de orgulho pelo seu sacrifício patriota. É certamente por isso que Pedro Passos Coelho, de visita à fábrica japonesa Toyota, augurou de profecias sombrias sobre o seu novo PEC com o rosto solene e altivo: Sim Portugal é o kamikaze servil do laboratório económico da UE e isso é o seu orgulho.

 

Por outro lado é completamente incompreensível o apoio comovido de uma parte da população que é essa sim a sacrificada. É a cabeça do povo que está em jogo mas a nobreza reivindica-se na esfera política. Definitivamente o Governo perdeu completamente o pé com a realidade e já não é capaz de perceber que o povo já não aguenta mais sacrifícios.

 

Já não há raciocínio nem ponderação. Num cenário internacional em constante mudança Passos continua sem pestanejar o seu percurso recessivo sem avaliar sequer os efeitos das medidas que ainda não entraram em vigor. Visita as fábricas colonizadas que fizeram a nossa glória ao assistencialismo económico e pede por mais enquanto massacra a realidade da Economia nacional e a sua dimensão inexoravelmente local. Portugal não mudará economicamente de um dia para o outro mas a austeridade sim.  

 

Essa submissão irracional não deixa lugar para o inevitável plano B e faz nos questionar em que aspecto os partidos do centrão representam ainda uma via política ponderada e responsável.  

 

Os países deveriam ser destruídos por utopias de mundos melhores e não para preservar o caos e miséria a níveis suficientes para preservar os mestres Europeus e as poucas camadas que ainda conseguem viver no luxo. Este não é um raciocínio radical mas sim um entendimento realista das correntes políticas e da sua relação com o contexto global. Ninguém quer sacrificar-se para preservar um sistema com os dias contados e que nos trouxe até onde nos encontramos... Só quem ainda não fez o luto das suas ilusões...  

publicado por Mrego às 18:11
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