Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Greve

Ontem tivemos mais uma greve nos transportes públicos. Se procurava os grevistas à porta das estações de comboio, distribuindo panfletos e procurando sensibilizar os utentes perante a perda de qualidade dos serviços, terá ficado certamente desapontado pois era no meio de um desfile carnavalesco que os teria certamente avistado.

 

O dia de folga era-lhes mais do que merecido nem que pela compensação no ordenado. O “disfarce” de greve, mesmo pela circunstância, é que não fez boa figura. O problema é que já tivemos muitas destas Greves. Daquelas sem resultados, que deixam o utente desemparado e abandonado com a sua frustração em alturas em que esse transporte se torna mais essencial.

 

Resultados desta greve? O Estado encaixa os custos. Como paga o contribuinte e que os gestores e governo deslocam-se habitualmente em altas cilindradas, ficam-se pela contrariedade de ter que redigir um discurso de circunstância. O utente, que é severamente castigado, já perdeu o fio da indignação. Já não sabe se a greve é pelos motivos das greves passadas, se é por esses, pelos presentes e quem sabe eventuais futuros. Já não sabe sequer se estava bem informado sobre os motivos passados e não encontra ninguém que lhe explique devidamente os motivos presentes. Os resultados são portanto para uns indiferença e para outros uma indignação contraproducente aos objetivos da greve. Perante a incompreensão não esperem do eleitorado compaixão. O candidato com o discurso mais feroz será o preferido dos utentes.

Assim tem acontecido. As reivindicações da greve nunca são atingidas e as consequências nos votos vão cada vez mais no sentido contrário aos objetivos.

 

Na Esquerda parece existir princípios sagrados que não são sujeitos a avaliação. A greve é uma delas. O conceito de boa ou má greve é irrelevante. Uma greve é uma greve. É conseguida quando tem muita adesão e é conseguida em menor escala quando tem menos. Nos dois casos é conseguida. Se necessário aumenta-se o número real de grevistas, o cidadão já está habituado a fazer a média com os números igualmente fictícios da polícia.
A luta é uma reza. Vai-se para ela sem cabeça e por amor à camisola. Na pior das hipóteses espera-se que os objetivos sejam atingidos pelo karma.
Essa problemática está evidentemente ligada a questão da avaliação das chefias na Extrema-Esquerda. É a habitual governação para dentro, quer do partido em relação ao eleitor comum, quer do sindicato em relação ao eleitor ou utente. Mais do que para o povo, ambos rezam para uma divindade superior. São como padres a pregar em latim. Não percebem? Percebessem, não estão dispostos a mexer no seu tradicional vernáculo sagrado.
E é assim que, como dizia o Padre António Vieira, a Esquerda torna-se o sal que não salga. Quem se preocupa com a concretização real da sua ideologia lamenta que ninguém procure pregar aos peixes pois a cada eleição paga uma fatura salgada.

 

A Greve dos transportes de ontem é o exemplo mais avassalador. Haveria muito para dizer das manifestações que juntam PCP e profissionais que, olhando para o horizonte de alcatrão gritam e pulam para depois votar PSD nas eleições. Haveria muito a dizer sobre as corporações de funcionários públicos que se indignam em grandes congressos à porta fechada sem a presença da sociedade civil. A total incompetência, preguiça e ortodoxia na comunicação do que se viu ontem não poderia ter proporcionado melhor carvão à máquina de Direita.

 

Não, todas as greves não são boas e muito menos sempre conseguidas. O seu molde atual é aliás muitas vezes ineficiente no contexto do trabalho público. A greve nos dias de hoje é assustadoramente antiquada e presa a uma leitura ortodoxa da conceção Marxista. Tanto no seu decorrer como na sua apreciação dos resultados.

 

O conceito de luta de classes encontra-se completamente desatualizado do contexto Democrático atual e exige uma leitura filosófica capaz de filtrar e adaptar essa visão. Talvez seja por essa incapacidade que muitos na nossa esfera ideológica demonstram pouca permeabilidade perante a escrita bíblica, mas a verdade é que este é mais um dos elementos de intransigências irracionais que eu dispensaria. Todas as filosofias devem ser enquadradas no seu contexto temporal e renovadas perante o “momento” contemporâneo. A Filosofia Marxista nasce num mundo opressor e no qual a democracia é minoritária e extremamente opaca. Perante a ausência de Direitos a aquisição dos mesmos passava inevitavelmente pela violência. Em todos os aspetos a sociedade de classe dividia-se em camadas perfeitas de desigualdade material e intelectual. Por contraste, o contexto atual proporciona não só as ferramentas educativas de forma igualitária como coloca no cidadão o poder colossal do voto. Esse progresso Civilizacional tornou o conceito de classes muito menos insolúvel.

 

Em Portugal essa realidade é infelizmente ainda muito recente e a construção mental da máquina opressora fascista perdura na mente de muitos homens de peso na esfera da defesa dos direitos. Muitos conjugam ainda essa equação perante sinónimos reformulados e reagem perante ela com as ferramentas de outrora.

Essa herança respeitável e que eu defendo tanto como o direito sagrado de Greve exige não só reformulação como o maior respeito. Autorizar-se

ineficácia e comodismo é desrespeitar esse princípio sagrado.

 

Não tenho em mão todas as soluções para o problema, mas consigo esboçar linhas. A primeira é que tanto a greve no sector público como a manifestação devem ter como principal metas a sensibilização do eleitorado. Não façam comícios corporativos, abram as portas à sociedade civil e procurem partilhar o sentimento de indignação de forma a proporcionar a criação de movimentos de utentes. Utilizem a manifestação como elemento de união e de comunicação entre todos (menção especial para o bom trabalho dos Indignados nesse ponto). Não façam apenas cartazes que perguntam, façam cartazes que dão respostas. É preciso combater os que nos rotulam de ser “do contra”. Temos ideias e projetos e devemos fazer deles os nossos estandartes. Arrisquem a desobediência civil em coletivo favorecendo os consumidores com benefícios excecionais. Os Agricultores são um exemplo positivo dessa atuação na distribuição dos seus produtos diretamente ao consumidor.
Este projeto de uma nova expressão da Greve é uma construção que só nos podemos fazer à luz do mundo atual e na qual todos deveríamos poder participar.

 

Só a Indignação corajosa e esperançada pode mudar o rumo eleitoral.

publicado por Mrego às 13:54
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Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012

Cassandra

Verdade mas também desonestidade Senhora Merkel. Na altura as empresas portuguesas tinham todas as possibilidades de financiamento através do capital privado. Como tal era natural os políticos apostarem na mudança de factores económicos com os quais as empresas não podiam interagir: As infra-estruturas. É fácil falar quando se começa um processo de modernização nos anos 50. Portugal teve que começar nos anos 80, altura em que a Alemanha já estava bem preparada.

 

Porque não aproveitou Portugal o fácil financiamento para a sua iniciativa privada? Porque 41 anos de fascismo apologista da humildade e ignorância deixam marcas.

 

É fácil falar, especialmente de um caso tão grotesco como o de Jardim. É perfeitamente certo que muitas das opções foram mal pensadas e desviadas para proveito corrupto. Porém dizer que toda esta situação era previsível é uma grande mentira.

 

Portugal não pecou na intenção, pecou na execução e lutou contra factores que demoram tempo numa fase em que, sem o saber, já não sobrava quase tempo nenhum. Os bancos criaram um clima de confiança porque era esse (deveria ainda) ser o seu papel. Muitos entraram em crédito porque tudo indicava que seriam capazes de o pagar. Ninguém previa na sombra o processo progressivo de migração laboral que iria tornar o emprego precário. Ninguém previa a teia complexa de redes especulativas que iria tornar o crédito concedido cegamente num negócio lucrativo através dos credit default swap. Caso que provocou uma bolha da qual Portugal não beneficiou em rigorosamente nada pois as suas taxas de juros eram ainda assim bastante mais elevadas do que as das suas congéneres europeias.

 

Porém Portugal está a pagar o preço.

 

É fácil ser profeta do passado. É verdade que alguns sabiam o que estava a acontecer. Um grupo de tecnocratas escolhidos que tudo fizeram para esconder não só o que se estava a fazer na esfera financeira como ocultar os riscos iminentes.

 

Eu sei que sabe muito bem de quem estou a falar Senhora Merkel… Porque faz agora parte deles.

publicado por Mrego às 09:48
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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

Eleftheria i thanatos (Gregos e Troikianos)

A questão Grega tem agitada, um pouco mais do que o habitual, a actualidade política desta semana.

 

Em pleno período de negociação do seu previsível novo resgate perante a sua previsível recensão e previsível incapacidade de financiamento, surgem varias problemáticas que, não sendo novas, suscitam a necessidade de reafirmação de todos os elementos do xadrez político.

 

Passo Coelho reafirmou que o acordo era para cumprir seja “qual for o custo” e que Portugal não era a Grécia. A Europa (Merkozy) reafirmou que a austeridade é o único caminho possível para mais federalismo e que a Grécia deveria consequentemente aumentar a dose do “remédio” (veneno). Camilo Lourenço, economista e embaixador da política orçamental troikiana na comunicação social em regime diário, reafirmou que os Gregos eram “ingovernáveis” e que deveriam sair pois estavam a prejudicar o bom rumo do novo projecto europeu. Em tom de resposta, os Gregos reafirmaram o seu desejo de Democracia e liberdade de definir o rumo do seu destino.

 

Poderia ter partilhado mais umas notícias no grupo facebook do Civismo… Farei também eu o mesmo exercício de reafirmação.

 

No que se refere a atitude portuguesa, quero denunciar a prepotência desesperada e cobarde do discurso que, no limiar da xenofobia, apresenta o povo Grego como um agente infeccioso ao qual Portugal não se pode comparar, sendo antes o nosso país uma ligeira constipação que por casualidade anda viciada em antibióticos.

 

O sentimento anti-helénico não merece resposta da minha parte. Quem não reconhece dignidade a um povo que reclama a sua, precisa de abrir um dicionário. Quem despreza um povo que procura a sua dignidade não terá dificuldade em digerir o meu desprezo. A reacção contra a xenofobia é de facto uma composição de uma simplicidade simétrica.

 

O desdém e desgosto ornamental da actual estrutura governativa já merecem mais a minha atenção pela desonestidade intelectual que representam. Portugal não apresenta em nenhum aspecto semelhanças com a estrutura Económica Irlandesa. A robustez do país perante a austeridade tem sido não só um sucesso muito relativo como a prova de uma solidez económica anterior que advém de múltiplas condicionantes. Nem a força de vontade nem a submissão perante a austeridade figuram como elementos condicionantes deste caso de “sucesso”.

 

A febre insana da tecnocracia social-democrata inspira muitas imagens, metáforas ou comparações.

 

Portugal enfrenta nu um inverno rigoroso. Ao seu lado está a Irlanda de camisola e a Grécia nua prestes a morrer de frio. O Lusitano enche o peito e faz o confiante: Está convencido de que a sua pele é mais dura do que a Helénica. Para mostrar a sua força despreza a Grécia e goza-lhe o fraco epiderme “Bem pode morrer”. No corpo de Portugal porém surgem todos os sintomas da hipotermia. Conhece os bem, são os mesmos que teve a vizinha desprezada. São muitos os que dificilmente passarão o inverno. São muitos os que morrerão sem se conhecer.

 

Perdoam-me esta infantilidade mas os factos concretos já não precisam de apresentação. Tanto os Portugueses como os Gregos não precisam das análises de jornais Americanos. A aplicação das medidas e a crise que delas nasce é algo que os dois povos sentem na pele. Portugal não cumprirá as metas do acordo e não conseguirá “pagar o que deve” nos moldes actuais. Quem valoriza o humanismo pela solidariedade na condição humana não convive bem com a ideia de deixar a arrogância e o individualismo em epitáfio. Quem valoriza a gestão estratégica não convive bem com oportunidades diplomáticas desperdiçadas.

 

Reafirmo que o deficit Democrático explorado pela comunidade europeia através da chantagem torna ainda mais impraticável o desastroso projecto. Camilo Lourenço tem razão quando diz que os Gregos são ingovernáveis. Inexplicavelmente, é vício de democratas querer ser governado apenas por si mesmo. Talvez seja porque a subjugação mercantil tem tendência a funcionar muito menos quando se deixa de poder comprar seja o que for.

 

O que acontece é que quando já não há dinheiro para comprar objectos as pessoas tendem a querer comprar dignidade. Tem um preço elevado é verdade mas não precisa de capital para ser adquirido.

 

São assim as pessoas: sedentas de objectos e valores.

 

Hoje há mais uma greve geral na Grécia ocupada. Imagino que a primeira terá atraída muitos reivindicadores do material. Atrevo-me a pensar que hoje terá mobilizada muitos reivindicadores de valores.

 

Eleftheria i thanatos, Liberdade ou Morte, é o lema da Grécia. O governo, representante do povo, já não pode agradar aos Gregos e aos Troikianos… Talvez seja por isso que esses Gregos agradam-me.

publicado por Mrego às 16:37
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Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012

A Fé política, o magma que está por trás de todo o pensamento e postura cidadã, é como qualquer Fé: Cega e louca.

 

Os Sacrifícios pelo bem colectivo exigem uma abnegação altruísta semelhante ao religioso perante o seu Deus. É na desigualdade das proporções, no divino e no vivo, no invisível e no visível, no sentir e no imaginar que um procura pelo limitar consciente das suas possibilidades a emulação da transcendência para além da racionalidade.

 

Porém, errado está aquele que não sente o paradoxo que une o altruísmo e o individualismo. A glória do mártir pode trazer mais prazer que a segurança do cauteloso medíocre e é perante essa preferência que o “pior” pode ser preferível.

 

Num mundo sem barómetro metafísico para avaliar o bem, o sensorial surge como o primeiro critério de avaliação perante qualquer decisão. É portanto natural que esse seja o elemento de perturbação do homem de fé. Pela opulência a qual abdica, pelo carnal que lhe é proibido, o dedo acusador do outro ou da sua própria racionalidade, aponta o vazio e ausência de certezas procurando arrasar a “ilusão” de pureza, procurando arrasar a Fé.  

 

São poucos os elementos para acreditar e o Homem está condenado a ser Homem: Imperfeito. O recipiente humano é bem frágil para segurar tamanha perfeição e a transcendência maniqueísta torna-se um fardo íntimo. O pecado e a imperfeição atormentam o melhor de nós através da culpabilidade. A tentação de renunciar a esse sofrimento, abraçar o seu Ego e embriagar-se da sua animalidade, não possuí nenhum adversário senão a própria Fé.

 

É essa a batalha silenciosa que decorre em muitos de nós e são muitos os elementos externos que pretendem influenciar o desfecho dessa luta.

 

A constância na moral só tem equivalente na constância na política. Não me refiro a tecnocracia e a sua gestão racional baseada nos aspectos lucrativos de qualquer decisão política. Desejamos há muito constância nos nossos representantes políticos e solidez moral e patriótica no nosso eleitorado.

Refiro-me a aqueles que, de Esquerda ou de Direita, estão dispostos a qualquer sacrifício sensorial individual pela primazia dos seus princípios ideológicos.

 

A Fé do Democrata ou de qualquer indivíduo que coloca o bem colectivo como superior baseia-se no rosto metafísico do Povo. A Fé do individualista reside na crença da metafísica do seu Ego. Ambos procuram destruir a figura divina do outro apontado para as falhas e ausência de provas que cada um apresenta respectivamente. A razão pela qual conseguem fazê-lo com tanta eficiência é porque ambos partilham a esquizofrenia dos dois raciocínios. O homem do colectivo já foi atormentado pelo individual e o homem do individual já foi
atormentado pelo colectivo. Porém ambos manifestam-se, embora muitas vezes inconscientemente, como representante de um dos dois.

 

Como homem de Esquerda o meu alvo filosófico principal, a matriz do meu raciocínio, reside na crença na Humanidade na sua dimensão colectiva. É portanto nesse sentido que me apontam as falhas do meu dogmatismo e linearidade. Apresentam-me provas do pior do humano, dividem a sociedade entre virtuosos e pecadores e colocam em maioria os que vivem do sensorial independentemente dos outros. Procuram destruir qualquer fé na construção civilizacional colectiva e sugerem a liderança de um grupo de privilegiados livres de qualquer moral pois são cães a mandarem em cães. Essa fatalidade é uma jaula confortável na qual muitos procuram aprisionar-me.

 

Sou a Esquerda arrogante.

Sou hipócrita ou insano.

Sou megalómano e patético.

 

Cada um poderá responder da forma que entender perante este assalto ideológico. Cada um poderá mudar ou manter-se. Afirmo aqui que qualquer racionalidade política de Esquerda é construída sobre as bases de uma profunda história de Amor. Como qualquer paixão essa é sim egoísta, como qualquer paixão é cega e imperfeita. Assumo-a até ao limite e sonho-a eterna. É do seu calor que me aqueço e é por ela e por mim que me mantenho irremediavelmente fiel apesar de tudo.

 

É esta a mensagem identitária que quero para o “Civismos”.

Quem discursa política desprezando a Fé política não poderá obter aqui nada mais do que uma resposta formal. Quem assumir a sensibilidade e fraqueza da sua impalpável moral é aqui bem-vindo, seja qual for o seu “Deus”.

Permitam-me apresentar-vos os pormenores do meu neste espaço através dos meus textos.

 

publicado por Mrego às 16:58
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